sábado, 19 de janeiro de 2008

O arsênio afeta a saúde humana

O arsênio afeta a saúde humana (1)

Richard Martin - Austin, Texas USA

O envenenamento crônico por arsênio causa numerosos problemas de saúde no corpo humano.

O que é arsênio?

O arsênio inorgânico é considerado um veneno para seres humanos desde os tempos antigos. O arsênio é um material metálico altamente tóxico, branco-acinzentado. Arsênio inorgânico é criado quando o elemento arsênio combina-se com oxigênio, cloro ou enxofre. Arsênio inorgânico tem sido usado como veneno em pesticidas e herbicidas, e também em caldas de conservantes para tratamento de madeira. O arsênio inorgânico é um veneno extremamente tóxico. Os compostos orgânicos ou inorgânicos de arsênio não avisam da sua presença: eles são pós brancos ou sem cor, e não têm cheiro nem gosto. Pode parecer incrível, mas um grama de arsênio é veneno suficiente para matar sete pessoas adultas.

Como o arsênio pode afetar minha saúde?

O arsênio pode ser inalado ou ingerido ou, em menor grau, assimilado pela pele. Basta a décima parte de um grama acumulada durante dois meses para causar a morte, e o arsênio causa câncer em níveis muito menores.

Água: O limite internacional de segurança do arsênio na água potável já foi de 50 ppb (partes por bilhão), depois passou para 10 ppb e agora já existem países que querem baixar para 2 ppb.

Solo: A Agência de Proteção Ambiental (EPA) norte-americana estabeleceu um limite de segurança de 10 ppm (10 mg por kg) de arsênio no solo. Níveis de arsênio acima deste limite dão o direito à EPA de ordenar a descontaminação de um estabelecimento comercial pelo proprietário.

Ar: Os limite internacional máximo permitido para exposição ao arsênio inorgânico em ambiente de trabalho é de 10 microgramas por metro cúbico, calculado como um média em um dia de oito horas (OSHA- Occupational Safety and Health Administration, Estados Unidos da América). O arsênio já foi detectado no cabelo, sangue e urina de crianças que viviam perto de uma usina termoelétrica que queimava carvão com um conteúdo de arsênio de apenas 1.000 grams por tonelada. Ototoxicidade por arsênio trazido pelo ar resultou em um aumento significativo de perda auditiva entre crianças expostas.

Detecção e dosagem

Sinais de alerta: Tanto o arsênio inorgânico quanto o orgânico não dão nenhum sinal de sua presença. Os compostos de arsênio são pós brancos ou incolores sem nenhum gosto ou odor específicos. Dada a quantidade diminuta requerida para produzir um efeito letal, a ausência de sinais de alerta tornam estas substâncias muito mortíferas.

Presença: Arsênio inorgânico é encontrado em muitos tipos de rocha, especialmente nos minérios que contêm cobre, chumbo, prata e ouro. Quando esses minérios são triturados para extrair os metais valiosos, a maior parte do arsênio é coletada para a produção de pesticida. Como no caso da radiação, todos nós somos expostos a baixos níveis de arsênio (especialmente arsênio inorgânico) porque níveis muito baixos dele estão sempre presentes no solo, água, alimentos e ar. Uma pessoa ingere em média cerca de 8 microgramas (cerca de 8 milésimos de um grama) na comida todo dia. Arsênio também está presente na fumaça de cigarro onde ela se origina dos inseticidas usados no tabaco.

Mecanismos de assimilação: O arsênio pode ser ingerido, aspirado quando se respire poeira, e, em um grau muito menor, pela absorção através da pele. Envenenamento acidental já foi registrado em casos de uso de vestimentas inadequadas durante a aplicação de produtos baseados em arsênio.

Uma dose letal de arsênio também pode ser alcançada mediante um processo acumulativo durante semanas ou meses. Doses múltiplas sub-letais recebidas durante um período de várias semanas podem acumular no corpo até alcançar uma dose letal. E em doses muito pequenas, o arsênio causa câncer.

Toxicidade do Arsênio

A dose letal aguda de arsênio inorgânico para humanos foi estimada em cerca de 0,6 mg/kg/dia: isso significa que para um adulto de 70 kg, uma dose tóxica é de 42 mg ou 0,042 gramas. Para uma criança de 10 kg, isso seria equivalente a uns 6 mg or 0,006 grams. A título de comparação, 1 grama de arsênio é suficiente para matar 7 pessoas adultas.

A exposição a altos níveis de arsênio inorgânico – mais de 100 ppm de arsênio no alimento e na água – também pode ser fatal. O arsênio e compostos de arsênio são agentes causadores de cancer bem conhecidos e têm sido implicados em cânceres de pulmão e pele e também têm sido associados com defeitos congênitos (defeitos de nascimento). Embora o arsênio orgânico (arsênio combinado com compostos de carbono) seja menos tóxico, ele causa efeitos semelhantes.

Gás arsino: O gás arsino (AsH3) é produzido quando arsênio-elemento ou arsênio inorgânico reage com compostos de zinco ou certos fungos. O gás arsino tem sido usado como arma química de gás tóxico para o sistema nervoso, e ele é preparado mediante a reação do zinco com arsênio, na presença de um ácido. Tetos de zinco galvanizado em áreas de chuva ácida poderiam, teoricamente, causar esta reação, embora o volume esperado de arsino seria baixo. Já armazenar cinzas de madeira imunizada com produtos à base de arsênio em uma lata galvanizada pode ser um pedido de problema.

Mesmo em concentrações tão baixas quanto 3-10 ppm, o gás arsino pode causar efeitos tóxicos em poucas horas. Onde o gás arsino é encontrado em baixíssimos níveis o início da doença é lento e insidioso. Após um período de meses, efeitos hemolíticos cumulativos se apresentam na forma de dispnéia (falta de ar) mesmo durante o descanso (falta de ar), intolerância grave ao exercício e uma taquicardia (pulso com freqüência aumentada). Estes sinais podem estar acoplados com sintomas neurológicos vagos, com uma sensação estranha nas pernas. A hipóxia resultante da exposição a baixos níveis de gás arsino pode levar a desmaios de duração variável.

Neste estágio, a remoção da fonte de contato com o gás arsino pode não ajudar, por causa do “período de latência” de um a seis meses no desenvolvimento dos sintomas neurológicos. A recuperação dos efeitos hemolíticos leva a uma condição compensatória de “policitemia”, ou excesso de células vermelhas do sangue, em pacientes com metabolismo normal destas células.

A exposição mais prolongada a baixos níveis de gás arsino leva a um terceiro estágio da doença que tem semelhanças com o início do envenenamento agudo pelo gás arsino, incluindo urina amarronzada, tontura, dor de cabeça e delírio. Segue-se uma paralisia progressiva das pernas e braços, levando à “queda do pé”, “queda do punho”, ataxia e sintomas gerais incluindo problemas com a propriocepção ou senso de posição.

A recuperação da exposição sub-letal ao arsino é lenta: seis meses de paralisia variável seguidos de um período de recuperação de dois a quatro anos. Dependendo da exposição, existe a possibilidade de lesão neurological permanente afetando as extremidades, particularmente as mãos e os dedos.

Os efeitos do gás arsino sobre crianças e fetos não estão bem documentados, mas existem algumas evidências. No final da década de 1950, o exército da Nova Zelândia tratou roupa de cama e peles de carneiros usadas nas camas com um composto de arsênio com ação fungicida (o arsênio ainda é usado como fungicida em madeira tratada). Entretanto, um fungo chamado 'Scopulariopsis breviculis' pode metabolizar o arsênio e emitir gás arsino como um sub-produto. O gás arsino pode ter sido responsável por uma alta taxa de mortalidade infantil da síndrome da morte súbita infantil (SMS) ou “morte do berço” naquela época na Nova Zelândia. A “morte do berço” ou SMSI esteve anormalmente alta nas famílias de militares onde o arsênio foi usado como um fungicida nas “roupas de cama oficiais”.

Uma instituição de grande prestígio de fabricantes de relógios circulou um alerta aos seus membros que na renovação de velhos relógios havia risco de envenenamento por gás arsino devido ao pigmento 'Scheeles Green' usado nos mostruários dos relógios.

O mesmo fungo 'Scopulariopsis breviculis' mencionado acima foi responsável pelos envenenamentos de “papel de parede e pasta” do século 19 na Europe. O arsênio usado como fungicida no papel de parede era metabolizado pelo fungo e o gás arsino era liberado.

(A informação sobre gás arsino foi uma cortesia de Brian Shadd, Diagnostic engineers, UK.)

Sinais do envenenamento por arsênio

Os efeitos do envenenamento leve a partir da inalação de arsênio ou seus compostos incluem perda do apetite, náusea, e diarréia. Efeitos da exposição mais intensa ao arsênio incluem (1) sensação de “pinicação” nas palmas das mãos, ou câimbras nos músculos da panturrilha; (2) calor e irritação na garganta e estômago, um odor de alho no hálito e na respiração, ou um gosto metálico na boca; (3) vômitos, aumento da frequência das evacuações, com fezes muito soltas; (4) efeitos neurológicos, incluindo irritabilidade, inquietação, dores de cabeça crônicas, apatia, fraqueza, tontura, delírio, sonolência, convulsões ou coma.

O envenenamento crônico por arsênio causa numerosos problemas de saúde no corpo humano. Os sintomas mais comuns do envenenamento por arsênio são lesões de pele visíveis, do tipo hiper-pigmentação (melanose), hiperceratose das palmas das mãos e solas dos pés (ceratose), problemas respiratórios, problemas nos olhos, doença cardiovascular, como hipertensão e doença do pé preto, diabetes, neuropatia periférica e efeitos reprodutivos adversos que incluem aborto espontâneo, nascimento de prematuros e morte neonatal. Medidas de QI verbal e a memória de longo prazo também podem ser afetadas, e o arsênio pode surprimir a regulação hormonal e a transcrição gênica mediada por hormônio.

Os efeitos mais fatais são gangrena, insuficiência renal e insuficiência hepática e câncer de órgãos internos, particularmente câncer de bexiga e de pulmão. Como o arsênio interfere com o metabolismo de energia do corpo, os pacientes arsenicosos invariavelmente sofrem de fraqueza generalizada.

Os efeitos mais sérios do arsênio, como cancer e diabetes, requerem exposições longas e contínuas, talvez de 20 anos ou mais.

Sinais de exposição de longo prazo ao arsênio incluem: (1) desenvolvimento de marcas brancas nas unhas; (2) escurecimento da pele, lesões de pele, rash cutâneo (manchas salientes na pele) e o aparecimento de pequenas feridas nas palmas, solas e dorso, e de manchas que lembram “pingos de chuva em uma estrada empoeirada”.

Tatamento

O arsênio é eliminado do corpo rapidamente, portanto o remédio mais importante para o envenenamento por arsênio é eliminar a exposição. Os efeitos mais graves do arsênio, como cancer e diabetes, requerem longo prazo de exposição contínua para se manifestar, talvez 20 anos ou mais.

Envenenamento imediato agudo pelo arsênio: Indivíduos com suspeita de envenenamento por ingestão de arsênio devem ser sempre encaminhados aos cuidados médicos imediatos. Não há antídotos para o envenenamento imediato por arsênio, e o melhor que pode ser feito imediatamente após a ingestão é provocar o vômito. Lavagens ou eméticos – apomorfina, sulfato de zinco, ipeca, leite de magnésia, entre outros – devem ser usados, sob supervisão médica, a intervalos de até dois dias, em seguida administrar óleo de castor. Fluidos intravenosos geralmente são necessários para prevenir a desidratação. Pessoas com suspeita de envenenamento por arsênio sempre devem ser encaminhadas aos cuidados médicos imediatos.

Uma vez que o arsênio foi ingerido, o melhor tratamento deve ser a administração de agentes que se ligam ao arsênio e ajudam a prevenir seus efeitos tóxicos. Como o arsênio liga-se fortemente ao enxofre, os compostos baseados em enxofre e agentes quelantes têm sido empregados com sucesso. Agentes quelantes como o "British anti-lewisite" (BAL) agem ligando fortemente o arsênio em complexos, tornando-o inativo. Isso pode ajudar a desativar o arsênio e removê-lo do corpo de uma pessoa, evitando a intoxicação grave e a morte.

Agentes quelantes ligam-se fortemente aos metais como arsênio e mercúrio, e podem ajudar a eliminar esses metais do sistema.

(1) traduzido e adaptado de um texto obtido na internet e na Old House Magazine, número 17, Março/Abril 1998, Página 118-125.