quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Irineu Pereira da Silva

Irineu Pereira da Silva

(depoimento tomado dia 15 de outubro de 2007).

"Como morador da comunidade Santa Rita, antes mesmo da chegada da Rio Paracatu Mineração, eu sou apreciador da natureza. A natureza é coisa que só Deus pode nos dar. Sem água e sem ar puro nenhum vivente sobreviverá. Não adianta nada pregar meio ambiente numa era em que se fala de aquecimento global e dizer que temos que ter cautela. Que cautela? Eu lhe digo que com meio ambiente tem que ter é ação e já. A mineradora RPM está causando e poderá causar efeitos drásticos sobre o nosso meio ambiente, se alguém não der um basta. Admiro muito que a Fundação Acangaú abraçou essa causa. Esse nosso movimento é lícito. Ilícita é a destruição da natureza e das comunidades. Nós temos que defender o ambiente em que vivemos. Onde está a riqueza do Córrego Rico? Na cabeceira do Santa Rita fizeram crateras enormes; eles não se incomodam com a destruição, só se interessam pelo ouro. E para consegui-lo, causam a destruição da comunidade, a perda dos moradores, perda dos associados da nossa associação de moradores, perda da água, perda do clima, dos animais, árvores, perda dos nossos valores, nossos sonhos, perda do nosso ânimo, poluição do ar e da água. Enquanto isso, no país deles, estão protegendo as geleiras e até os ursos. Nós nem conhecemos esse povo, e não vemos o ouro que sai daqui. O que vai valer esse minério para nós? O que vai valer para os nossos jovens, no futuro? Sem água, sem mata, sem os nossos bichos, até as borboletas já sumiram. O que nos importa a vida sem a cadeia da natureza? Sem pássaro, sem água, sem ar puro? O que vai nos interessar, sem a cadeia da natureza? A mineradora tira os nossos valores, e acima de tudo, rouba os nossos sonhos. Acaba com a nossa missão de produzir alimentos e garantir a nossa sobrevivência. Mas eles não vão roubar a nossa voz. Seria como se nós morrêssemos antes da hora. Eu não sou contra o progresso, eu sou a favor. O progresso é para os meus filhos e para os filhos de toda a humanidade. Sou contra a construção de uma nova barragem e contra muitas coisas que essa mineradora está fazendo. Nós já moramos em baixo da primeira barragem de rejeitos. Todos sabemos que um acidente pode acontecer. Se acontecer, não serão somente plantas e animais, e sim vidas humanas que serão destruídas pela lama. Esse mineral, o ouro, vem assolando os fracos, humildes e pobres, desde Nabucodonosor. Ele fez uma estátua de ouro e queria que todo o povo adorasse essa estátua. Quem não se ajoelhasse seria lançado ao fogo. Mas alguns não se ajoelharam e venceram. Esta será a maldição de Paracatu, se essa mineradora continuar fazendo o que está fazendo. Eles passam por cima de tudo e de todo mundo, dizendo que ninguém vai impedi-los de construir a barragem. Eles dizem que só no futuro vão recuperar a área. Não podemos ter cautela, temos que tomar providências já, precisamos de ação. Minha reivindicação é esta: se a comunidade não rejeitar o projeto da mineração, que nos indenizem, para que possamos ir para outra área. Que invistam na comunidade, em novos parques ecológicos, nas reservas já existentes, no rio Paracatu, no Ribeirão Santa Rita, no São Pedro. Não podemos permitir que coloquem o ouro acima da água. A Paracatu do Príncipe agora é a Paracatu do Faraó, que ameaça atropelar a comunidade que está no seu caminho. Mas a nossa força é maior."