terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Homenagens ao Paulo Nogueira Neto



Foto: reprodução de https://afrabalazina.wordpress.com/2012/03/22/feliz-aniversario-antecipado-dr-paulo/

Gostaria de prestar minhas humildes homenagens ao Paulo Nogueira Neto, que acaba de nos deixar. Conheci-o há 27 anos, por ocasião do lançamento do meu primeiro livro, "A Ema (Rhea americana): Biologia, Manejo e Conservação", editado pela então recem criada Fundação Acangau. Paulo Nogueira Neto contribuiu com o magnífico prefácio do livro, onde contou um episódio inspirador da sua infância, passado em companhia do pai, numa visita aos Pampas argentinos, então povoados de bandos de emas que corriam à aproximação do trem. Creio que Paulo Nogueira Neto foi aquele eterno menino que, maravilhado com a beleza natural, tornou-se um dos seus maiores defensores. Somos-lhe eternamente gratos. Meus profundos sentimentos de pêsames à família.

Dr. Sergio U. Dani
Presidente da Fundação Acangau

domingo, 10 de fevereiro de 2019

"Licenciamento da barragem da Kinross foi fraudulento e ilegal", denuncia paracatuense

Há dez anos, o paracatuense Manoel Eustáquio de Jesus move ação contra a mineradora canadense Kinross Gold Corporation/Kinross Brasil Mineração. A Kinross opera a maior mina de ouro a céu aberto do Brasil, com as maiores barragens de rejeitos do Brasil. Manoel Eustáquio, conhecido em Paracatu como Takinho, explicou ao alertaparacatu que o processo de licenciamento da barragem do Eustáquio foi fraudulento e ilegal. 

“Para conseguir a licença para erguer a barragem do Eustáquio junto aos órgãos ambientais do Estado de Minas Gerais, SUPRAM/SEMAD/IEF, a Kinross recorreu a uma fraude, apoiada por um Ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ)”, explica Takinho. “A Kinross obteve, por via fraudulenta, um direito de posse de terras na área da barragem que ela não detinha. A escritura das terras era falsa e inválida, tinha sido bloqueada pela Justiça de primeira instância, mas o Ministro do STJ, Cesar Asfor Rocha, assim mesmo atendeu pedido da Kinross e concedeu-lhe uma posse provisória e servidão da área, abrindo o caminho para o licenciamento fraudulento e ilegal”, esclarece. 

“Depois de ter conseguido o licenciamento, erguido a barragem e inundado o Vale do Machadinho com rejeitos tóxicos, a Kinross agora busca fazer uma espécie de lavagem da fraude e da ilegalidade, requerendo um usucapião extraordinário da área inundada. Ocorre que a Lei 5709/71 impede o usucapião de terras no território brasileiro por empresa de capital social majoritariamente estrangeiro, como é claramente o caso dessa filial integral da canadense Kinross no Brasil”, explica. 

“Se todo o licenciamento da barragem fere a Lei brasileira, ele é ilegal e a Kinross está todo esse tempo trabalhando graças à fraude e a ilegalidade. Então por que estão acobertando, por tanto tempo, essas ilicitudes da Kinross?” conclui.

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Simplesmente desativar barragem de rejeitos não basta

Entrevista com o Professor e Geólogo Márcio José dos Santos

Alertaparacatu: Qual é o material de que são feitas as barragens da Kinross em Paracatu? Existe areia nas barragens?
- Prof. Márcio Santos: O material utilizado para o alteamento das barragens dos rejeitos da mineração de ouro em Paracatu-MG, conforme pudemos constatar, é de granulometria predominantemente silto-argilosa. Provavelmente, é a mesma granulometria do material utilizado para erguer as barragens em Brumadinho e Mariana e as demais barragens de rejeito. Nos maciços das barragens, a presença de areia é insignificante; caso contrário, não seria possível erguê-las, pois o maciço são suportaria o primeiro enchimento.

Alertaparacatu: As barragens de rejeitos construídas pelo método de alteamento a montante são seguras, como afirmam as mineradoras?
- Prof. Márcio Santos: As mineradoras sabem e sempre souberam que a construção de uma barragem de rejeitos utilizando o método de alteamento a montante não é segura. É muito arriscada. Elas escolheram o método de forma consciente e ignoraram o princípio de precaução, que deve nortear todo empreendimento de risco. Jogaram com a vida das pessoas e, pior, convenceram os próprios trabalhadores da inexistência de risco. Basta ver os acidentes com barragem que ocorrem no mundo, pensar no que ocorreu em Mariana. Agora vêm alguns engenheiros argumentando que a direção da Vale pecou por ignorância de um fenômeno pouco conhecido. O método de alteamento a montante é tão reconhecidamente perigoso, que em Paracatu a Kinross tem o descaramento de dizer aos jornalistas e pessoas da comunidade que suas barragens foram construídas a jusante, o método mais seguro, porém o mais caro. O processo de renovação do licenciamento ambiental da mineradora é claro ao afirmar que os oito primeiros alteamentos (ou seja, aproximadamente 80 m) da barragem do Santo Antônio foram feitos a montante; somente os 30 m restantes foram construídos pelo método linha de centro modificada. O maciço inicial da barragem do Eustáquio foi feito a jusante, partindo depois para alteamento a montante e linha de centro. Isto está no relatório da Kinross, automonitoramento, mas eles não contam isso para o público.

Alertaparacatu: O que se pode dizer sobre os técnicos e empresas que certificam a segurança das barragens, usando critérios técnicos nacionais ou internacionais, mesmo sabendo que a certificação é furada?
- Prof. Márcio Santos: Quem falseia a verdade, coloca pessoas em risco, agride a natureza e mata pessoas não pode ser considerado profissional ético, e muito menos como vítima quando preso e condenado. A “cegueira proposital” e a “lavagem verde”, seja a que título for, não é apenas crime de falso testemunho, é crime hediondo, é crime contra a humanidade. O que temos visto são diretores prepotentes que pressionam os profissionais técnicos das empresas para trabalharem na perspectiva de minimização dos custos e para maximizar os lucros. Quando os “acidentes” acontecem a culpa fica nos profissionais e os diretores se safam, embora não se possa negar a responsabilidade de quem foi subserviente ou venal. Nos trabalhos que viemos desenvolvendo em Paracatu, estamos sempre apontando os danos, os perigos e os riscos que a mineradora Kinross traz à natureza e às pessoas, enquanto seus funcionários estão sempre a postos para afirmar o contrário. Será que somos pessoas de má-fé, como diz a mineradora e seus apoiadores? Quem está falando a verdade e quem está mentindo?

Alertaparacatu:O Ministério Público quer medidas judiciais para desativar barragens perigosas, como as da Kinross, de Paracatu. Somente a desativação resolve o problema?
- Prof. Márcio Santos. Ainda não ouvi o Ministério Público aventar a hipótese de desativação das barragens da Kinross, mesmo porque eles sempre falaram a mesma linguagem. Desativar por si só pode ser muito arriscado, corre-se o risco de se fazer algo nocivo para jogar para a plateia desavisada, uma espécie de “lavagem verde” do risco. A desativação só faz sentido se for apenas o primeiro passo para fazer o que realmente importa: desmontar completamente as barragens, extingui-las como fonte de contaminação de arsênio e como risco de rompimento. Todos os rejeitos tóxicos devem ser completamente removidos das represas, lagoas de rejeitos e barragens, inativados, cimentados e retornados, na forma de blocos sólidos e estáveis, cuidadosamente para dentro da cava da mina, seguindo um plano previamente elaborado, como se fosse a construção de uma enorme pirâmide de blocos, o "novo Morro do Ouro". Esse método é conhecido por “pit filling” (enchimento da cava da mina). O método permite soluções interessantes, inclusive paisagísticas, por exemplo, a construção de terraços verdes. O método também permite um manejo mais seguro da água. É muito importante que as operações de desmonte das barragens e “pit filling” sejam acompanhadas, fiscalizadas e aprovadas por equipes multidisciplinares de profissionais experientes, com competência comprovada através de currículo, e independentes da mineradora. Obviamente, a mineradora é obrigada a arcar com todos os custos desse trabalho, que deverá empregar muito mais gente que as operações de extração realizadas até os dias de hoje. Se a mineradora não aceitar pagar essa obrigação, ela e sua diretoria deverão responder ações judiciais, inclusive na esfera criminal, e sanções econômicas, no Brasil e no exterior.