quarta-feira, 29 de abril de 2009

RPM/Kinross mente sobre o filme "Ouro de Sangue" e engana a população de Paracatu


RPM/Kinross mente sobre o filme "Ouro de Sangue" e engana a população de Paracatu

A pedido de Alessandro Silveira de Carvalho, co-autor, juntamente com Sandro Neiva, do documentário "Ouro de Sangue", censurado e atacado pela mineradora RPM/Kinross, o Dr. Sergio Ulhoa Dani examinou trechos das afirmações feitas pela mineradora no rádio e na TV, em resposta à apresentação parcial do filme pela TV Paracatu, dia 15 de abril de 2009.

Confira aqui as mentiras da RPM/Kinross, comentadas pelo Dr. Sergio Dani:

1. A mineradora transnacional canadense, RPM/Kinross, afirma que "os produtores do filme em nenhum momento procuraram a empresa para ouvir o outro lado." O estado confusional e a arrogância da RPM/Kinross não permitem que ela perceba que o filme retrata a mineração de ouro vista pelos olhos da população que sofre os danos causados por ela. Nessa visão, não interessa o que a RPM/Kinross pensa. Interessa o que o povo pensa e sente. A RPM/Kinross tem dinheiro para fazer sua propaganda, mas o povo nunca teve voz. O filme "Ouro de Sangue" retrata a verdade, e a verdade incomoda a RPM/Kinross. Incomoda mais ainda, porque a RPM/Kinross não conseguiu controlar ou censurar a publicação da verdade, mesmo com todo o seu dinheiro.

2. A RPM/Kinross acusa os autores do filme de não terem espírito democrático. A arrogância técnica, as mentiras, as mortes de garimpeiros, a destruição do meio-ambiente e a publicidade enganosa da RPM/Kinross mostram que ela não entende nada de democracia, e muito menos de ter algum tipo de espírito. Portanto, ela não tem moral para acusar ninguém.

3. A RPM/Kinross afirma que o livro editado em 2007 pela Agência Nacional das Águas é uma publicação científica nacional, e usa isso como prova de que o consumo de água em suas instalações é bem conduzido. A publicação citada pela RPM/Kinross não é uma publicação científica. Uma publicação científica é feita em revistas especializadas com corpo editorial independente e revisores científicos qualificados. O livro citado pela mineradora é apenas uma coletânea de artigos de divulgação feitos pelas próprias empresas e instituições, sob o patrocínio do governo. O artigo citado pela RPM/Kinross vem assinado pelos próprios funcionários da empresa. Afirmações desse tipo comprovam que a RPM/Kinross não sabe o que é ciência, nem o papel social da ciência. A RPM/Kinross atenta contra a inteligência do nosso povo. 

4. A RPM/Kinross afirma que mais de 85% da água utilizada pela empresa é reciclada, e diz que isso é referência mundial. A verdade é que os 15% de água nova captada pela RPM/Kinross diariamente nos córregos e ribeirões de Paracatu correspondem a mais do dobro do consumo diário total de água da cidade de Paracatu. E 85% de água reciclada na mina de Paracatu não é referência mundial, pois a própria empresa Kinross recicla 95% da água em uma mina nos Estados Unidos. Nessa mina de Buckhorn, a água utilizada pela empresa é devolvida à natureza depois de ser filtrada pela empresa. Por que a RPM/Kinross não trata a água de Paracatu e os paracatuenses com o mesmo cuidado que trata a água dos Estados Unidos e os americanos? Será que é porque os americanos foram mais duros nas negociações, e aqui em Paracatu eles estão mal-acostumados com a nossa hospitalidade e humildade?

5. A RPM/Kinross afirma que, em 2007, bombeou do Ribeirão São Pedro menos da metade do que foi autorizado pelos órgãos ambientais. Ela esquece de dizer que "menos da metade" corresponde a todo o volume de água consumido na cidade de Paracatu. Ela também esquece de dizer que, além da água bombeada do Ribeirão São Pedro, ela também consumiu toda a água armazenada nos tanques da mina do Morro do Ouro. Acontece que essa água foi furtada das nascentes do Córrego Rico e do Córrego São Domingos. Essas nascentes foram destruídas pela RPM/Kinross, e a água que alimentava as nascentes hoje é totalmente utilizada pela empresa.

6. A RPM/Kinross afirma que "na bacia do Entre-Ribeiros, o total de água consumido por indústrias e irrigação é 80 vezes maior que o volume utilizado pela Kinross." A verdade é que a RPM utiliza água 24 horas por dia, para produzir ouro. Os irrigantes da bacia do Entre-Ribeiros utilizam água preferencialmente na época da seca, e somente durante poucas horas do dia, e para produzir COMIDA. Isoladamente, ninguém utiliza mais água que a RPM/Kinross em Paracatu, e por tanto tempo. Isso afeta a disponibilidade de água na bacia do Ribeirão Entre-Ribeiros, que já secou em alguns anos. Por causa da escassez de água, os irrigantes do Entre-Ribeiros foram forçados a diminuir pela metade o volume de água utilizado. Mas a RPM/Kinross não reduziu em NADA o volume de água consumido. Pelo contrário, ela quer aumentar o volume de água para viabilizar o seu projeto de expansão III. Isso poderá estrangular ainda mais a produção agrícola em Paracatu, com grandes prejuízos para a economia do município.

7. A RPM/Kinross afirma que a água que deixa a operação da RPM não é contaminada. Mentira! A água que a RPM capta nos nossos mananciais é da classe I, mais limpa, e a que ela devolve para a natureza é da classe II, mais contaminada. A própria empresa tem relatórios publicados indicando a presença de arsênio, sulfatos e outros contaminantes na água que ela devolve para a natureza.

8. A RPM/Kinross afirma que a qualidade das águas é assegurada pelos monitoramentos periódicos. Ela esquece de dizer que os monitoramentos periódicos são feitos por ela mesma. Isso é como ter um lobo tomando conta do galinheiro. Na mina da Kinross em Buckhorn, nos Estados Unidos, os monitoramentos são terceirizados, sob o controle da comunidade local. Se a RPM/Kinross dá tanta importância aos monitoramentos, por que não deixa a própria comunidade científica de Paracatu conduzi-los e fiscalizá-los? O que ela teme?

9. A RPM/Kinross afirma que a barragem de rejeitos é monitorada diariamente e por auditorias com os maiores especialistas do mundo no assunto. Não negamos que a RPM/Kinross monitore a barragem muito bem. O que ocorre é que monitoramento nenhum é capaz de mudar o fato que a barragem de rejeitos da RPM/Kinross é classificada, quanto às consequencias de sua ruptura, de potencial para causar grande número de fatalidades e danos extremos. Quando a RPM/Kinross encerrar a mineração de ouro em Paracatu, deixará essa herança terrível para a comunidade.

10. A existência de peixes, tartarugas e aves na barragem de rejeitos é apontada pela RPM/Kinross como sinal da boa qualidade da água. Essa afirmação revela a IRRESPONSABILIDADE E ARROGÂNCIA TÉCNICA DA EMPRESA, que pretende enganar o povo de Paracatu com sua FALSA CIÊNCIA. A verdade é que as espécies de peixes presentes na barragem, como traíra, tilápia e carpa, são altamente resistentes à contaminação ambiental. Mesmo assim, depois de certo tempo, até esses peixes podem morrer, porque vão acumulando substâncias tóxicas como o arsênio em seus corpos. Análises de água feitas pela própria mineradora revelam a presença de arsênio e outros contaminantes na água da barragem de rejeitos.

11. A RPM/Kinross afirma que cianeto, cádmio, chumbo e mercúrio não são detectados em nenhum dos pontos de monitoramento, nem naqueles localizados à jusante da barragem. Essa afirmação não convence, porque é baseada no auto-monitoramento da empresa. Para maior clareza, pedimos à mineradora que apresente as análises independentes de solo e água realizadas em todos esses pontos.

A RPM/Kinross afirma que neutraliza o cianeto, que é um composto fatal se inalado, ingerido ou no caso de haver absorção através da pele. O contato com ácidos, água ou substâncias alcalinas fracas libera um gás venenoso, o gás cianídrico (Cianeto de Hidrogênio). A verdad é que nos países desenvolvidos, o cianeto utilizado na extração do ouro deve ser totalmente decomposto a dióxido de carbono (CO2) e nitrogênio ou amônia, antes dos rejeitos da mineração serem devolvidos para a natureza. Em Paracatu, a RPM/Kinross descarta rejeitos incompletamente tratados em tanques específicos, contendo cianetos residuais e compostos intermediários tóxicos,
configurando um risco de contaminação ambiental. A lenta liberação de cianetos em tanques específicos, através da fotólise, é fonte de contaminação ambiental. A decomposição do cianeto nos tanques específicos é lenta e incompleta. Por isso tem razão o geólogo Márcio Santos, em seu
depoimento no documentário, quando afirma que o cianeto dos tanques da RPM/Kinross são um risco para as futuras gerações.


12. A RPM/Kinross afirma que sua área de mineração não avança de maneira predatória sobre a vizinhança. A verdade é que o avanço da RPM/Kinross resultou no desmonte e degradação de bairros da cidade de Paracatu, como Morro do Ouro, Amoreiras II, Alto da Colina, Lavrado, Lagoa e São Domingos, e várias comunidades rurais, como Santa Rita e Machadinho. O Ministério Público entrou com uma ação contra a RPM/Kinross, exatamente para exigir indenização sobre o patrimônio público destruído pelo avanço predatório da mineradora. A destruição das comunidades e sua cultura para abrir espaço para a mineração de ouro não é avanço predatório? E a poeira tóxica da mineração que avança sobre toda a cidade?

13. A RPM/Kinross diz ter um "número zero de reclamações nos negócios de compra" que ela efetuou. Mentira. Temos notícia de várias reclamações, ações judiciais e até calote que a RPM/Kinross deu em corretor de imóveis a seu serviço.

14. A RPM/Kinross afirma que os niveis de ruídos estão sempre abaixo do estabelecido pela legislação. E ainda diz que tais níveis podem ser assegurados pela interrupção de lavra em áreas mais próximas à comunidade, nos períodos noturnos. Não é isso que dizem os vizinhos da mineradora. Então a mineradora está dizendo que eles são mentirosos. Mais respeito, RPM/Kinross. Isso é kinrolação explícita!

15. A RPM/Kinross afirma que a poeira da mina que chega na cidade não tem o nível tóxico afirmado no filme Ouro de Sangue. Análises da mineradora não apresentaram nenhum elemento tóxico, incluindo-se o aí o arsênio, acima de padrões ambientais e de saúde. O discurso da mineradora na audiência pública de abril de 2008 era bem diferente: ela afirmava que não havia arsênio na poeira que chega em Paracatu. Foi preciso que a UFMG realizasse, a pedido da comunidade, análises de poeira, para provar que a mineradora estava mentindo. Agora a mineradora afirma que o arsênio da poeira não está acima de padrões ambientais e de saúde. Outra mentira, porque não existe nível de segurança para substância cancerígena como o arsênio.

16. A RPM/Kinross cita estudos epidemiológicos conduzidos pelo CEMEA-Centro Mineiro de Estudos Epidemiológicos e Ambientais para afirmar que as taxas de doenças respiratórias em Paracatu não diferem daquelas encontradas em outras cidades de Minas Gerais, situando-se inclusive abaixo da média do estado e de cidades vizinhas. Segundo a mineradora, o mesmo acontece com as ocorrências de cânceres que se concentram em sua maioria na porção sul do estado. A verdade é que nem mesmo a prefeitura municipal de Paracatu possui esses dados, porque ainda não concluiu o estudo epidemiológico, clínico-laboratorial e atuarial requerido pela Fundação Acangaú e Instituto Serrano Neves, em julho de 2008. O câncer está na "boca do povo" em Paracatu. Isso é razão suficiente para conduzir um estudo sério e profundo sobre o problema que acontece em vários lugares do mundo onde existe mineração de ouro a céu aberto em zona urbana. Convidamos a RPM/Kinross a apresentar para a Prefeitura os estudos epidemiológicos conduzidos pelo CEMEA, para que possamos analisá-los e comentá-los para a população, que é a destinatária final desses estudos e merece um esclarecimento imparcial.

17. A mineradora afirma que faz lavagem obrigatória dos veículos na saída da empresa. A verdade é que muitos veículos ainda saem sujos da mina para a cidade. Várias manifestações contra a sujeira de veículos foram feitas no bairro Amoreiras II, inclusive com prisão dos manifestantes pela polícia, que coibiu as manifestações a pedido da RPM/Kinross. Integrantes da própria polícia reconhecem que o problema continua.

18. A RPM/Kinross afirma ser responsável por 10% dos empregos de Paracatu. Esse dado, por si só, é questionável, porque inclui empregos indiretos, que são gerados por toda a economia, e não apenas pela mineradora. O número de empregos diretos gerados pela RPM/Kinross em Paracatu não passa de 800. E o número de desempregados pela atividade da mineradora deve atingir a cifra dos milhares: são ex-garimpeiros, ex-lavadeiras, ex-agricultores, ex-ourives, etc. A mineradora vive afirmando que é a maior empregadora de Paracatu. Isso é mentira. As maiores empregadoras de Paracatu são a COOPERVAP e a Prefeitura Municipal.

19. A RPM/Kinross afirma que trouxe uma unidade do CEFET para Paracatu. A verdade é que a mineradora apenas contribuiu com uma soma muito pequena de todo o esforço político, técnico e financeiro para a vinda do CEFET para Paracatu. A vinda do CEFET não foi decisão da empresa mineradora, e sim uma decisão institucional de governo. E a RPM/Kinross não pode achar que é governo em Paracatu. Isso não é função dela.

20. A RPM/Kinross afirma o seguinte: "Diferentemente do que dizem os detratores da empresa, a RPM/Kinross nunca se colocou como "mãe" de Paracatu, dando a esta palavra tão significativa um sentido maldoso". Aqui a mineradora tem razão, não podemos chamá-la de mãe. Doravante será chamada de MADRASTA. Nossas desculpas às mães, sinceras desculpas pelo nosso pecado mortal de comparar a RPM/Kinross com mãe. Mas falando em MADRASTA continuem a ler os que nós os "detratores" escrevemos, assinamos e mais, MOSTRAMOS A CARA, diferentemente da mineradora que não tem ninguém que ARRISQUE A PRÓPRIA CARA para dizer as coisas. Em outros textos, onde escrevemos mãe, leiam MADRASTA SEM CARA.

21. A RPM/Kinross afirma que "é e sempre será uma parceira para Paracatu, seus moradores e seus descendentes. Uma parceria que se pauta pela transparência e pela ética". A verdade é que a Kinross admite, em seu código de ética publicado em documento de conhecimento geral, a prática de "pagamentos facilitadores" às autoridades locais, para garantir o bom andamento dos seus negócios. Então é difícil acreditar quando uma empresa como essa fala de ética e transparência.

22. A RPM/Kinross se coloca como porta-voz do povo de Paracatu quando afirma o seguinte: "O povo de Paracatu não se deixará enganar por mentiras e, como a RPM Kinross faz neste momento, fará trazer a verdade à tona." Gostaríamos de lembrar à RPM/Kinross que ela não tem autoridade para falar pelo povo. E muito menos de enganar o povo com suas mentiras.

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Sergio Ulhoa Dani
Reserva do Acangaú, zona rural
Caixa postal 123
38.600-000 Paracatu MG
Brasil
(+55 38) 9913-4457
(+55 38) 9966-7754


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Serrano Neves
Procurador de Justiça