quarta-feira, 29 de abril de 2009

Ouro de Sangue: assista a tudo o que a RPM/Kinross não gostou e a TVP não mostrou


Ouro de Sangue: assista a tudo o que a RPM/Kinross não gostou e a TVP não mostrou

A MÍDIA UNDERGROUND MOSTRA SUA FORÇA

Por Sandro Neiva (*)

Algumas pessoas não sabem de onde vem o ouro nem como ele é extraído. Mas uma mineração aurífera pode dizimar comunidades inteiras, contaminar a água potável e causar danos graves na saúde das pessoas e meio ambiente. Uma aliança de casamento ou outra jóia de ouro pode ter um valor inestimável. Talvez você mesmo tenha uma dessas alianças e sabe que seu custo é alto. Mas o custo do ouro para o planeta e para as pessoas que nele vivem é muito mais alto que o valor do próprio metal.

Assim como as monoculturas e o agronegócio, - implantados no país sob uma lógica devastadora - a mineração de ouro a céu aberto é uma das atividades mais perniciosas que a humanidade conhece. Utiliza venenos químicos, gera montanhas de rejeitos tóxicos e deixam uma cicatriz permanente na vida das pessoas e das paisagens. Não existe mineração sustentável porque isso implicaria garantir para as próximas gerações os recursos que dispomos hoje. Visto que mineradoras trabalham com recursos não renováveis (que se esgotam com a exploração), tem-se uma clara contradição entre mineração e sustentabilidade.

No caso específico de Paracatu, as lavras a céu aberto e em perímetro urbano causam prejuízos irreversíveis ao ambiente e à saúde de comunidades urbanas, camponesas e quilombolas. Garimpeiros , legítimos fundadores da cidade, taxados de criminosos e mortos covardemente por seguranças armados. A qualidade do ar e da água esvaindo-se a níveis alarmantes e a impressão generalizada de que a cidade está sendo "engolida".

Tais fatos levaram a mim e ao colega Alessandro Silveira a tomar a decisão de fazer um filme sobre o assunto. Somente um documentário de denúncia, feito com preciosos materiais de arquivo, pesquisa primorosa, rigor jornalístico e olhar cinematográfico conseguiria mexer com a letargia, conformismo e resignação gratuita das pessoas. Concluído em maio de 2008, "Ouro de Sangue" inicia sua trajetória de participação em festivais de cinema espalhados pelo Brasil. Participou da 35ª Jornada Internacional de Cinema da Bahia, realizada em Salvador entre os dias 11 e 20 de setembro de 2008. No mês seguinte o filme foi para a bela Nova Friburgo, cidade serrana do Rio de Janeiro, onde participou do I Festival Internacional de Cinema Socioambiental. Devido ao fato de ter sido produzido de forma independente, sem patrocínio algum, "Ouro de Sangue" não conseguiu nenhuma premiação, mas intelectuais de várias nacionalidades puderam observar e debater a questão.

Por meio da Lei Rouanet, O Ministério da Cultura financia dezenas de festivais de cinema espalhados pelo país. Esses festivais atuam como fomentadores da atividade cinematográfica, incentivam novos cineastas a produzirem seus filmes e garantem a liberdade de expressão.

O filme "Ouro de Sangue" foi legendado em língua inglesa e está sendo enviado para diversos festivais de cinema no exterior. Em Paracatu, foi exibido na Escola Estadual Antônio Carlos como material didático para alunos do Ensino Médio.

No feriado de Páscoa fui procurado pelo proprietário da TV Paracatu, Arquimedes Borges de Oliveira, que ofereceu espaço gratuito em sua emissora para a exibição do documentário, precedido de uma entrevista de divulgação. Eu e o co-diretor Alessandro Silveira concordamos prontamente em exibir "Ouro de Sangue" por entender que seria uma prestação de serviços a Paracatu. O filme foi ao ar no dia 15 de abril, mas a exibição foi abruptamente "abortada" aos 27 minutos, sendo que a duração total é de 44 minutos. Nenhuma explicação oficial ou qualquer tipo de satisfação foram apresentados pela TV Paracatu até o momento. Infelizmente, eu me encontrava em Brasília, onde resido, e não pude acompanhar a reação das pessoas, que segundo informações de amigos, foi de indignação.

Apesar de não ter ficado claro se o corte teria ocorrido por motivações políticas, censura, telefonema ou jabaculê, está de parabéns a TV Paracatu pela iniciativa de ter apresentado ao menos o início do filme. Talvez isso possa representar um início de revolução nas mentes menos pensantes e nas forças retrógradas e reacionárias de alguns segmentos da sociedade local. Parabéns à Câmara Municipal de Vereadores por lutar pela aprovação da Lei das Águas. Parabéns ao Ministério Público por tentar impedir a construção de uma nova barragem de rejeitos químicos. Parabéns aos nossos hermanos da província de Córdoba, na Argentina, cujos legisladores aprovaram recentemente lei que proíbe a mineração a céu aberto. Salve o campesinato paracatuense e nossos afro-brasileiros descendentes de quilombos. Bem aventurados aqueles que lutam contra os grilhões da ignorância e opressão.

O filme “Ouro de Sangue” foi legendado em língua inglesa e está sendo enviado para diversos festivais de cinema no exterior. Em Paracatu, foi exibido na Escola Estadual Antônio Carlos como material didático para alunos do Ensino Médio. No momento da exibição aos jovens estudantes do ensino público, instantaneamente me veio à mente um fato ocorrido há pouco mais de um ano no bairro Santana. Ao ser convidado para dar uma entrevista ou depoimento para o filme "Ouro de Sangue", uma ave de rapina da política local, figurinha fácil na Assembléia Legislativa do estado, cacarejava ao meu ouvido com sua voz fanho-anasalada:"Não tem jeito de mobilizar a opinião pública porque essa questão da RPM é um caso irreversível. É assim mesmo! Não tem como mudar!". Será?

(*) Sandro Neiva é jornalista

P.S. – ATENÇÃO: Assista a tudo aquilo que a TV Paracatu não mostrou. "Ouro
de Sangue" na íntegra, com 44 minutos de duração, DE GRAÇA, no www.bloodstainedgold.blogspot.com.

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Sergio Ulhoa Dani
Reserva do Acangaú, zona rural
Caixa postal 123
38.600-000 Paracatu MG
Brasil
(+55 38) 9913-4457
(+55 38) 9966-7754


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Serrano Neves
Procurador de Justiça