quinta-feira, 7 de maio de 2009

Fome e sede com data marcada


29 de abril de 2009

Fome e sede com data marcada

Por Sergio Ulhoa Dani

A revista Veja publicou na edição 2110, número 17, um artigo intitulado “Fome com data marcada”. O artigo relata a descoberta de uma pesquisa americana de que as secas na África ocorrem em ciclos, e que uma nova tragédia está prevista para daqui a duas décadas.

A África tem muito em comum com a América do Sul e o Brasil, e aqui também as secas apresentam um padrão cíclico. A maior seca de que temos notícia em Paracatu assolou a região nos anos de 1947 a 1951. As águas secaram, até o Rio Paracatu secou, segundo relato dos nossos avós. Minha avó Djalmira contava que o largo da Fazenda Caetano do meu avô Cândido Ulhoa ficou pintado do branco das ossadas das vacas.

Depois dessa seca, tivemos outras, mas nenhuma tão intensa e duradoura quanto aquela do final da década de 40. Naquela época, a maior parte da população do município vivia no campo, e a cidade de Paracatu devia ter uma população de umas 20 mil pessoas. A água de beber vinha de cisternas, poços semi-artesianos e córregos urbanos. Apenas posso imaginar a falta d’água que a seca intensa e prolongada deve ter causado na cidade. Mas, como a população ainda era relativamente pequena, deve ter se virado de alguma forma.

Hoje a situação está bem diferente, com a maior parte da população do município morando na zona urbana, e com as nascentes e córregos urbanos degradados pela ocupação desordenada e pela mineração predatória de ouro. Em 1996, o então prefeito municipal, Manoel Borges, decretou estado de calamidade pública na cidade, por falta d’água. E a seca daquele ano não havia sido tão intensa como a de 1947-51. A situação foi contornada pela captação de água do Ribeirão Santa Isabel, a 20 km de distância da cidade, de onde a água é bombeada.

O clima está desregulado em função do aquecimento global. Grandes rios secam desde a Amazônia até o sul do país. O volume de água das cataratas do Iguaçu estão reduzidas a menos da metade. Se as previsões sobre o aquecimento global se confirmarem, teremos secas no Brasil e em Paracatu muito mais intensas e devastadoras que a de 1947-51. Essas secas pegarão a cidade numa condição fragilizada, pois o abastecimento de água depende de energia elétrica e água de superfície que poderá não estar disponível para uma população numerosa.

Por isso é tão importante protegermos hoje todos os recursos hídricos estratégicos ainda disponíveis, como o Ribeirão Sotero e as nascentes do Ribeirão Santa Rita, no Vale do Machadinho, ao norte da cidade. Essa água pode vir por queda natural para a cidade, dispensando a energia elétrica, que poderá estar racionada ou indisponível no futuro.

Nós não poderemos evitar as secas devastadoras que se anunciam. Mas podemos e devemos nos preparar para elas. A aprovação da Lei das Águas de Paracatu é a primeira e mais importante providência a ser tomada hoje para evitar os impactos da seca sobre a população da cidade.

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Sergio Ulhoa Dani
Reserva do Acangaú, zona rural
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