quinta-feira, 4 de junho de 2009

O devastador “Efeito Kinross”



O devastador “Efeito Kinross”

Por Sergio Ulhoa Dani (*)

A concentração de arsênio no minério da mina Morro do Ouro, em Paracatu-MG, Brasil, varia de menos de 2500 ppm a mais de 4000 ppm (Henderson, 2006). A concentração média é de 1100 ppm, o que significa 1 kg de arsênio para cada tonelada de minério.

Como, até o momento, 300 milhões de toneladas de minério já foram extraídas do Morro do Ouro e depositados pela RPM/Kinross no lago de rejeitos do vale do Córrego Santo Antônio, significa que a RPM/Kinross já depositou 300 mil toneladas de arsênio neste vale.

Com o seu projeto de expansão III, a mineradora transnacional canadense Kinross ameaça depositar mais de um milhão de toneladas de veneno na caixa d’água de milhões de brasileiros.

Mortes por atacado

Apenas um grama de arsênio é veneno suficiente para matar 7 pessoas adultas. Um kg mata 7 mil; uma tonelada mata 7 milhões; mil toneladas matam 7 bilhões, ou seja, o equivalente a toda a população de seres humanos que hoje habita o planeta Terra.

Então a RPM/Kinross até agora depositou em Paracatu arsênio suficiente para matar 300 vezes a população do planeta. Este arsênio está depositado em um gigantesco lago de rejeitos, e vai sendo liberado aos poucos para a água que sai deste lago, tanto para o lençol freático quanto para os córregos e rios da região.

Uma análise feita pela própria RPM/Kinross, em 2008, indicou uma concentração de 3 ppb de arsênio na água do lago de rejeitos atual. Esta é apenas uma fração dissolvida de todo o arsênio depositado no lago. Essa fração é, em sua maior parte, arsênio tóxico, nos estados inorgânicos trivalente e pentavalente.

Considerando uma drenagem superficial do lago de rejeitos, medida nos drenos situados ao pé da barragem, em 2008, da ordem de 140 litros por segundo, temos a liberação de cerca de 13 Kg de arsênio por ano, apenas nesse ponto (quantidade suficiente para matar 90 mil seres humanos adultos, em um ano)

Mas a drenagem superficial não corresponde a todo o potencial de contaminação e morte, pois a água contaminada do lago de rejeitos também infiltra para o lençol freático, contaminando as águas subterrâneas do aqüífero de Paracatu para sempre.

Basta que existam poços tubulares puxando água deste aqüífero, para que uma catástrofe semelhante à de Bangladesh e Bengala Ocidental (Índia) aconteça em Paracatu e região (Harvey e cols., 2002; Khan e cols., 2003; Adel, 2005; Zuberi). E existem pelo menos 11 poços tubulares destinados ao abastecimento público de água na cidade de Paracatu.

Em vista da contaminação já existente e da ameaça do despejo de mais de 1 bilhão de toneladas de rejeitos da RPM/Kinross no Vale do Machadinho, é imprescindível proteger o aqüífero em toda a extensão do Sistema Serra da Anta, do contrário não restarão alternativas para o abastecimento público de água em Paracatu (Adel, 2005; Joya e cols., 2006).

Contaminação irradiada para o espaço e o tempo

Mas o “Efeito Kinross” não se restringe a Paracatu e região. O Córrego Santo Antônio, que foi barrado para a construção do lago de rejeitos atual da RPM/Kinross, faz parte da bacia do Rio São Francisco, considerado o rio da integração nacional do Brasil.

A bacia do São Francisco, no Estado de Minas Gerais, ocupa o primeiro lugar em termos de produção de água e contribui com 44,5% da vazão mínima (Q7,10) do Estado. O veneno liberado pelas atividades de mineração da RPM/Kinross acaba chegando ao Rio São Francisco, de onde se espalhará para diversos Estados, afetando milhões de pessoas, durante séculos ou milênios.

Considerando uma taxa de lixiviação do arsênio da Kinross de 1 tonelada por ano, levaria 300 mil anos para que todo o arsênio do atual lago de rejeitos fosse lixiviado.

Efeito Kinross expandido e magnificado ao extremo

O projeto de expansão III da mineradora transnacional canadense Kinross em Paracatu vai aumentar a deposição de arsênio nas águas superficiais e profundas.

As reservas de ouro que a mineradora quer explorar a partir de agora estão nos chamados horizontes B1 e B2, com a maioria (90%) presente no horizonte B2. Este horizonte é mais profundo, é caracterizado por rochas mais duras e mais alto teor de ouro e de arsênio.

Os teores de ouro aumentam na mesma proporção da arsenopirita (rocha de arsênio, enxofre e ferro, que contém ouro), de forma que os maiores teores de ouro ocorrem onde o conteúdo de arsenopirita é maior (Henderson, 2006).

A arsenopirita é o sulfeto mais comum na mina de Paracatu e ocorre como agregados granulados finos (<1mm)>3mm). Cristais de até 1 cm são comuns. Os cristais aumentam de tamanho no sentido sudoeste. As quantidades de arsênio e ouro aumentarão à medida que a mina se aprofundar neste sentido. A Figura 1, retirada do relatório da Kinross sobre a mina de ouro de Paracatu, ilustra a proporção de ouro para arsenopirita.

O processo de moagem, hidratação e oxidação da arsenopirita libera ouro, arsênio e ácido sulfúrico. A Kinross minera a arsenopirita, retira o ouro para os canadenses e devolve o arsênio e o ácido sulfúrico para os brasileiros.

Figura 1 NO TOPO DA PÁGINA – Incrustração de ouro num grão de arsenopirita, a rocha que contém arsênio. O minério da mina de ouro da Kinross em Paracatu possui arsenopirita na proporção média de 1000 ppm, podendo chegar a mais de 4000 ppm. Retirado do relatório da Kinross sobre a mina de Paracatu, publicado na internet (Henderson, 2006).

O que interessa à Kinross não interessa a Paracatu ou ao Brasil

(e o que interessa a nós, não interessa a eles)

A Kinross é proprietária da mina de ouro de Paracatu desde 2003, quando comprou uma participação nesta mina da mineradora anglo-australiana Rio Tinto. A partir de dezembro de 2004, a Kinross tornou-se a única proprietária da Mina Morro do Ouro.

A Kinross possui licenças de pesquisa de lavra concedidas pelo DNPM (Departamento Nacional de Pesquisas Minerais, órgão do governo federal do Brasil) em mais de 20 mil hectares em torno da Mina Morro do Ouro, incluindo a própria cidade de Paracatu (Henderson, 2006).

O Estudo de Viabilidade Econômica mostrou que o projeto de expansão III da mina da Kinross em Paracatu é economicamente viável quando o preço do ouro for superior a US$400/oz.

A Kinross Gold Corporation destina fundos do seu fluxo de caixa operacional para os custos de reabilitação e fechamento da mina. As atividades de reabilitação executadas depois que a mina completar suas operações são financiadas pelo portfólio das minas em operação da Kinross (Henderson, 2006).

A Kinross contabiliza as obrigações de reabilitação de acordo com práticas geralmente aceitas no Canadá e nos EUA (GAAP under HB 3110 / FASB 143 Asset Retirement Obligations (ARO) reporting guidance). Para Paracatu, por exemplo, isso significa que a Kinross está declarando o valor líquido presente (a taxa de desconto é baseada no custo de capital para a Kinross) do custo total de reabilitação estimado para todos os danos, como uma obrigação ou passivo de longo prazo (Henderson, 2006).

Os fluxos de caixa da Kinross são baseados nos planos de vida útil da mina estimados a partir do seu modelo de recurso e reserva descrito no Relatório Técnico (Henderson, 2006). A Kinross considera o modelo financeiro confidencial e não incluiu detalhes do modelo no corpo deste relatório. Os modelos financeiros de Paracatu podem ser disponibilizados sob a vigência de um termo de confidencialidade a ser executado com a Kinross (Henderson, 2006).

(*) De Goettingen, Alemanha, em 3 de junho de 2009, para o Alerta Paracatu.

Referências:

Adel MM. (2005) The background state leading to arsenic contamination of Bengal basin groundwater. J Water Health. Dec;3(4):435-52

Harvey CF, Swartz CH, Badruzzaman AB, Keon-Blute N, Yu W, Ali MA, Jay J, Beckie R, Niedan V, Brabander D, Oates PM, Ashfaque KN, Islam S, Hemond HF, Ahmed MF (2002) Arsenic mobility and groundwater extraction in Bangladesh. Science. Nov 22;298(5598):1602-6.

Henderson, R. D. (2006) Paracatu Mine Technical Report. Kinross Gold Corporation, July 31, 2006. Disponível na internet em: http://www.kinross.com/operations/pdf/Technical-Report-Paracatu.pdf

Joya SA, Mostofa G, Yousuf J, Islam A, Elahi A, Mahiuddin G, Rahman M, Quamruzzaman Q, Wilson R. (2006) One solution to the arsenic problem: a return to surface (improved dug) wells. J Health Popul Nutr. 2006 Sep;24(3):363-75.

Khan MM, Sakauchi F, Sonoda T, Washio M, Mori M. (2003) Magnitude of arsenic toxicity in tube-well drinking water in Bangladesh and its adverse effects on human health including cancer: evidence from a review of the literature. Asian Pac J Cancer Prev. 2003 Jan-Mar;4(1):7-14.

Zuberi, M.I. Catastrophe in Human Environment: Arsenic in Groundwater of Bangladesh. Department of Botany, Rajshahi University, Rajshahi, Bangladesh. Acessado em: http://jnuenvis.nic.in/newslet/v9n1/invart.htm