segunda-feira, 1 de junho de 2009

A canadense Kinross ameaça matar milhares de brasileiros de sede e doenças


A canadense Kinross ameaça matar milhares de brasileiros de sede e doenças

Por Sergio Ulhoa Dani

A mineradora transnacional canadense, RPM/Kinross, acredita que pode despejar os rejeitos da mina Morro do Ouro no Vale do Machadinho, localizado na face leste da Serra da Anta.

Este artigo serve para informá-la que não concordamos nem permitimos que isso seja feito, porque significaria a morte de milhares de brasileiros, por sede e doenças.

Seguem as razões pelas quais não será permitido o depósito de lixo tóxico da mineradora no Vale do Machadinho.

PRIMEIRA: O VALE DO MACHADINHO FAZ PARTE DO AQUÍFERO DO SISTEMA SERRA DA ANTA, QUE ABASTECE A CIDADE DE PARACATU

O Sistema Serra da Anta é o aquífero que armazena água de abastecimento público de Paracatu, no noroeste do Estado de Minas Gerais. Um aqüífero é uma área do subsolo saturada de água, que se acumula nos poros das rochas ou nas suas fissuras (fraturas e falhas).

O Sistema Serra da Anta é a principal fonte de água potável para os 90 mil habitantes de Paracatu. Atualmente, a água deste aqüífero é captada do Ribeirão Santa Isabel, localizado na face oeste da Serra da Anta. Mas, dentro de alguns anos, Paracatu vai precisar das águas da face leste da Serra da Anta, exatamente onde está o Vale do Machadinho.





SEGUNDA: PARACATU PRECISA DA ÁGUA DO VALE DO MACHADINHO

Dentro de alguns anos, também será necessário captar água do Vale do Machadinho, na face leste da Serra da Anta, porque o Ribeirão Santa Isabel está secando e não existe outra opção mais barata e segura de abastecimento de água para Paracatu, porque a RPM/Kinross já destruiu e contaminou as nascentes do Córrego Rico, Córrego São Domingos e Córrego Santo Antônio, e as águas subterrâneas da cidade e seu entorno.

Já no século 18, o famoso Rego do Mestre-de-Campo trazia água do Vale do Machadinho por queda natural até o centro da cidade de Paracatu. Esta água é preciosa porque é água pura de montanha que chega à cidade por queda natural, sem gasto de energia.

Ou seja, Paracatu não poderá contar com a água dos poços tubulares, contaminadas e exauridas, e também não poderá contar somente com a água do Ribeirão Santa Isabel, que está secando e depende de energia elétrica para chegar à cidade através de bombeamento.

Paracatu precisa da água do Vale do Machadinho e tirar essa água de Paracatu significa tirar a vida e o sustento das milhares de pessoas que dependem dela para viver.

TERCEIRA: A PROTEÇÃO DE TODO O SISTEMA SERRA DA ANTA É A SOLUÇÃO DEFINITIVA E A ÚNICA AO ALCANCE DE PARACATU PARA GARANTIR O ABASTECIMENTO SUSTENTÁVEL DE ÁGUA DA CIDADE

A solução definitiva para o abastecimento de água de Paracatu consiste na proteção de todo o Sistema Serra da Anta, que será feita de diversas formas.

Em primeiro lugar, fomentando as práticas de conservação de solos, construção de curvas-de-nível e bacias de contenção e armazenamento das águas das chuvas em toda a extensão da Serra da Anta, inclusive os vales do Ribeirão Santa Isabel, Córrego do Espalha, Córrego do Sotero e as nascentes do Ribeirão Santa Rita, no Vale do Machadinho.

Em segundo lugar, deve-se evitar a utilização desmesurada da água. A recarga do aqüífero da Serra da Anta é lenta, pois depende da água da chuva que penetra o solo e migra lentamente para o seu interior. A utilização desmesurada da água pode ocasionar o rebaixamento do aqüífero, o que prejudica o abastecimento público e as nascentes responsáveis pela recarga dos cursos d’água locais.

Em terceiro lugar, deve-se evitar a contaminação das águas superficiais e profundas, pois, na prática, água suja é o mesmo que falta d’água. Os custos de tratamento da água podem ser tão proibitivos, a ponto de tornar o abastecimento público economicamente inviável. E sem água, não há crescimento; sem água, não há vida; sem água, não há atividade econômica; sem água, não há desenvolvimento e bem-estar social.

QUARTA: O VALE DO MACHADINHO É O ÚNICO LOCAL ONDE AINDA É VIÁVEL A CONSTRUÇÃO DE UM RESERVATÓRIO DE ÁGUA POTÁVEL PARA ABASTECIMENTO PÚBLICO DA CIDADE DE PARACATU

Com o agravamento da estiagem, que poderá ocorrer no futuro, será necessário construir um reservatório de água em Paracatu. O único local indicado para esse reservatório é o Vale do Machadinho, pelas seguintes razões:

(i) água pura de nascente garante que o reservatório não será contaminado;

(ii) vale bem encaixado configura uma relação favorável entre volume de água reservado e superfície do espelho d’água, o que garante taxas relativamente baixas de evaporação da água;

(iii) o cânion na extremidade sul da Serra do Canto, que delimita o Vale do Machadinho ao leste, garante economia de custos na construção da barragem do reservatório de água para abastecimento público.

QUINTA: O VALE DO MACHADINHO SERIA CONTAMINADO SE A RPM/KINROSS DEPOSITASSE ALI OS REJEITOS DA MINERAÇÃO

As práticas de produção de água devem ser acompanhadas das práticas de garantia da qualidade da água, pois não faz sentido garantir água em quantidade suficiente, com qualidade insuficiente.

Os rejeitos da mina Morro do Ouro estão contaminados com arsênio, chumbo, cádmio, bário, sulfatos e nitratos, entre outros contaminantes. Se forem depositados sobre o Vale do Machadinho, esses poluentes penetrariam as fissuras do aqüífero e contaminariam as águas para sempre, tornando-as inaproveitáveis para consumo humano.

A contaminação das águas superficiais e profundas pela atual barragem de rejeitos da RPM/Kinross já constitui prova irrefutável do potencial de contaminação de uma nova barragem de rejeitos, três vezes maior, no Vale do Machadinho, a montante da barragem atual.

O fenômeno da contaminação das águas superficiais e profundas por lagos de rejeitos de mineração de ouro já está fartamente bem documentado por vários estudos sobre falhas de grandes barragens e um estudo recente sobre as falhas das previsões de Estudos de Impacto Ambiental nos Estados Unidos (Kuiters e colaboradores, 2006).

Estes estudos comprovam que a drenagem e lixiviação dos rejeitos de mineração contaminam as águas superficiais e profundas. As medidas de mitigação, tais como a neutralização da drenagem ácida, não são suficientes para garantir a pureza da água, contrariando o que os empreendedores afirmam nos Estudos de Impactos Ambientais/Relatórios de Impacto sobre o Meio Ambiente (EIA-RIMA) frequentemente aprovados pelos órgãos governamentais de controle.

SEXTA: A RPM/KINROSS NÃO TEM DINHEIRO PARA LIMPAR A ÁGUA DO POVO DE PARACATU QUE ELA QUER SUJAR

Devido à contaminação inevitável das águas, todo projeto de mineração só deve ser aprovado após a apresentação e aprovação de um projeto de manejo e tratamento perpétuo da água, acompanhado de uma garantia financeira da execução deste projeto e de outras medidas mitigadoras para contingências não previstas, para todo o sempre.

Para um mega-projeto como o da expansão III da RPM/Kinross em Paracatu, essas garantias significam um valor muito maior do que todo o lucro operacional a ser auferido pela mineradora.

Isso significa que não é economicamente viável para a RPM/Kinross manejar e tratar a água de abastecimento público que ela quer sujar.

Isso significa que a conta de limpar a sujeira que a RPM/Kinross quer deixar em Paracatu não será paga pela RPM/Kinross.

A população de Paracatu é pobre, mas mesmo os pobres precisam de água para sobreviver.

A população pobre de Paracatu não tem dinheiro para limpar a sujeira de uma mineradora transnacional rica.

Alguns poucos paracatuenses ricos poderão optar por abandonar Paracatu, para fugir da morte e das doenças.

Mas para a maioria pobre da cidade, não restará outra opção se não ficar na cidade e sofrer.

Restará à maior parte da população de Paracatu morrer de sede ou das doenças causadas pela contaminação da água pela RPM/Kinross.

Enquanto isso, o Sr. Tye Burt e outros diretores e acionistas desta empresa criminosa se deleitam com salários milionários pagos pelo nosso sofrimento e o nosso sangue, e bebem água limpa lá no belo e limpo Canadá, bem longe da porcaria que estão causando em Paracatu.

Referência:

Kuipers, J.R., Maest, A.S., MacHardy, K.A., and Lawson, G. 2006. Comparison of Predicted and Actual Water Quality at Hardrock Mines: The reliability of predictions in Environmental Impact Statements. EARTHWORKS, 1612 K St., NW, Suite 808, Washington, DC, 20006 USA. info@earthworksaction.org; ww.mineralpolicy.org/earthworks_at_home.cfm