sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Sobre desequilíbrios ecológicos em Paracatu

Sobre desequilíbrios ecológicos em Paracatu

Sergio U. Dani, de Göttingen, Alemanha, em 9 de outubro de 2009

As pessoas em Paracatu estão surpresas com nuvens de bruxinhas e
gafanhotos que apareceram não se sabe de onde nem porque nessa época
do ano. Alguns chegam a vaticinar que as pragas do Egito estão
assolando Paracatu.


O crescimento inusitado e repentino de uma determinada espécie é uma
perturbação do equilíbrio que reina em um sistema ecológico
constituído de fatores físicos, químicos, biológicos e sociais. Num
sistema, esses fatores estão interligados, de forma que a mudança em
um dos fatores induz a mudanças em cadeia nos demais. Mudanças
climáticas induzem mudanças químicas que induzem mudanças biológicas
que levam a mudanças sociais e assim por diante.

O que a morte de um garoto num tanque da RPM/Kinross, a demissão de
funcionários públicos, os canaviais e os gafanhotos têm em comum? Eles
fazem parte de um mesmo espectro de mudanças em cadeia, porque há uma
ligação em tudo.

Nessa época seca e quente do ano, os insetos preferem atacar as
árvores como carvoeiro e capitão porque elas são leguminosas, são
gostosas e nutritivas, e além do mais em época de seca as árvores
conseguem se manter verdes. Suas raízes profundas buscam água onde as
raízes das plantas rasteiras não conseguem chegar. É por isso que se
diz que as árvores do cerrado mantêm a produtividade no ecossistema em
época de seca e calor.

Se acabamos com as árvores, causamos mudanças ou perturbações no
equilíbrio ecológico. No São Pedro e Entre Ribeiros, por exemplo, e
noutras regiões onde os canaviais e usinas de açúcar e álcool estão se
expandindo. A substituição de culturas e os desmates para expansão dos
canaviais expulsam a fauna residente, principalmente os insetos
predadores (por exemplo: aranhas, hemípteros ou "chupões", vespas
carnívoras, etc.) e outros animais predadores de insetos (por exemplo:
aves diversas, lagartos e lagartixas, morcegos, raposinha e
lobo-guará, gato-do-mato, tatús e tamanduás, etc.). Sem os predadores,
insetos proliferam criando desequilíbrios do tipo que está acontecendo
em Paracatu.

A contaminação química causa o mesmo tipo de desequilíbrio, atuando de
forma diferente. Os predadores estão no topo da cadeia alimentar, e
nessa posição eles acumulam muito mais arsênio e outros venenos que
suas presas que estão em níveis mais baixos da cadeia alimentar.

O resultado é que morre muito mais predador intoxicado do que presa.
Além disso, a presa intoxicada e morta também é devorada pelo predador
desavisado, assim o predador acumula muito mais veneno do que seria
normal de se esperar pela sua atividade e esforço normais de caça. As
espécies de presas mais resistentes ao envenenamento proliferam mais,
ou porque são mais resistentes, ou porque seus predadores morrem mais.
Isso gera um ciclo vicioso que intensifica o desequilíbrio ecológico.

Os efeitos dos desmates e do envenenamento são somatórios.

Você, caro leitor inteligente, saberia dizer como a morte de um garoto
e as demissões de funcionários públicos estão ligados no ecossistema
de Paracatu?

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