sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Der’o co’as zebras n’água

Der’o co’as zebras n’água

Por Sergio Ulhoa Dani, de Göttingen, Alemanha, em 23/10/2009

Você, caro leitor inteligente, já deve conhecer aquela velha expressão
popular brasileira, ‘deram com os burros n’água’? Não se sabe ao certo
qual seja sua origem. A explicação mais aceita é a do desalento de
estatura colonial. Na época do Brasil-Colônia (muitos acreditam que
essa época ainda não acabou) o transporte era feito em lombo de burros
e mulas, ou em carros-de-boi. O boi era mais fácil de arranjar, algo
como um carro popular, mas era mais lento. Já tropa de burro e mula
era coisa mais respeitável, algo como possuir um caminhão turbinado de
vários CV’s (no caso das tropas, vários BR’s). A tropa carregava as
mercadorias, as mudanças, o progresso e as esperanças no lombo. Então
não era nada alentador para o tropeiro ver sua tropa atolada num
brejo, ou rodando correnteza abaixo, assim como nenhum caminhoneiro
atual fica feliz em ver seu caminhão atolado até o eixo na lama. É
como se seus lucros, sua vida e seus sonhos fossem por água abaixo.
Então teria vindo daí a expressão ‘deu com os burros n’água’. Ela é
usada quando se quer dizer que algo saiu terrivelmente errado, não
conforme o esperado ou desejado. É quando algo desalentador acontece
durante a viajem com a tropa ou os tropeiros.


Feita essa breve introdução, é preciso agora dizer que a expressão
‘der’o co’s burros n’água” está sendo reformada em Paracatu, cidade do
noroeste de Minas Gerais. A expressão que está valendo lá é ‘der’o
co’as zebras n’água’. Explico, se o leitor inteligente me acompanhar
no raciocínio. O leitor já deve ter visto um burro e uma zebra,
portanto não será difícil concluir que a diferença externa principal
entre os dois está nas listas pretas e brancas da zebra, que mais
parecem listas em pijama de presidiário. Em tudo o mais uma zebra
parece muito mais um burro que um cavalo, por exemplo. É isso: uma
zebra, por fora, parece um burro listado. Na imaginação popular,
também significa algo errado, inesperado, um infortúnio ou desalento.
‘Deu zebra’ significa quase exatamente o mesmo que ‘deu com os burros
n’água’. O povo diz ‘deu zebra’ quando o seu time favorito perde para
o time mais fraco. A zebra também faz parte do jogo do bicho. Mas
quando alguém, no jogo do bicho, aposta na zebra, em vez de apostar na
cobra, no macaco ou noutro bicho já está, bem lá no fundo da sua
consciência, pensando com uma ponta de malandragem. Afinal, por que
apostar na zebra, no erro, no inesperado? Não é um risco, uma forma de
irresponsabilidade, uma burrice? A resposta é simples: a vontade do
enriquecimento rápido e fácil fala mais alto na mente de alguns. ‘Se
eu apostar na zebra’ – assim pensam – ‘e der zebra, então eu vou
ganhar mais, porque a maioria não terá apostado na zebra, então terei
que dividir o prêmio com poucos e sobra mais para mim’.

Exatamente isso é o que está acontecendo em Paracatu, e ficou claro
essa semana, no teatro animal da Câmara Municipal, onde as coisas
muitas vezes são decididas no chute, no grito e no tapetão, como num
campo de futebol. Na partida que se travou para decidir os destinos
das águas e da vida em Paracatu, der’o co’as zebras n’água. Em meio a
vaias e ovações de duas torcidas inimigas, o time da morte ganhou do
time da vida por 4 a 3. Não, não foram jogadores, foram vereadores,
mas em Paracatu e no Brasil, o país do futebol, vereadores e jogadores
parecem pertencer ao mesmo tipo humano. Falta de sorte? Não. Falta de
respeito, falta de vergonha, falta de educação, falta de valores,
falta de ética, falta de inteligência. Excesso de ditadura; 500 anos
da cartolagem no estilo ‘manda quem pode e obedece quem tem juízo’.

A partida foi decidida por 4 votos dos ‘representantes do povo’ contra
a Lei das Águas, e 3 votos dos representantes do povo a favor da Lei
das Águas. Os 3 vereadores que votaram a favor da lei que protegeria o
Sistema Serra da Anta de abastecimento público de água representavam
1049 pessoas que votaram em uma pesquisa de opinião a favor da lei. Os
outros 4 vereadores que votaram contra a água representavam 56 pessoas
que votaram contra a lei nessa mesma pesquisa de opinião [1]. Trocando
em miúdos, 5% decidiram contra a vontade e o senso comum de 93% da
população. Der’o co’as zebras n’água.

Acontece, meu leitor amigo, que democracia de verdade não se decide em
partida de futebol nem jogo de bicho. Democracia é necessidade básica
de sobrevivência. Então sem essa de zebra e cartolagem, porque a coisa
é séria. Parabéns aos três verdadeiros que verdadeiramente
representaram o povo, votaram a favor da lei e vão continuar a
defender a vida, porque deles é o reino dos céus e nós os amamos e os
apoiamos e eles a nós. Quanto aos outros, vão continuar posando de
pijama listado em zoológico. Se deixarmos essas bestas fazerem o que a
minoria dita e não o que a maioria precisa, elas escurecem o nosso céu
e apodrecem a nossa terra.

Referência:

[1] Pesquisa de opinião pública sobre a Lei das Águas de Paracatu,
conduzida no blog www.alertaparacatu.blogspot.com. Situação na data de
hoje: a favor da aprovação da lei – 1049 votos (92,7%); contra a
aprovação da lei – 56 votos (5%); quero mais informações sobre a lei –
20 votos (1,8%); sou indiferente – 6 (0,5%).