sábado, 3 de outubro de 2009

Dá-se-lhe-neles coragem. Covardia? Essa never.

Dá-se-lhe-neles coragem. Covardia? Essa never. 

Por Sergio U. Dani, de Göttingen, em 3 de outubro de 2009

Em matéria de confusão, nada supera a última matéria do editor Hiram
Firmino. Intitulada “Exemplo de coragem” e publicada como “carta do
editor” em sua própria revista “O Ecológico” na última “edição da lua
cheia” como ele costuma dizer, ela antecipa o que os críticos poderão
chamar de “edição lunática”, sem incorrer em qualquer erro gramatical,
filosófico ou de estilo.





Ao descrever alguns lances da “Conferência Brasil 2020”, ocorridos em
Belo Horizonte, o supra editor alcançou dois feitos confusionais de
estatura planetária: demonstrar confusa coragem e criar estapafúrdia
confusão.

Começou por qualificar os apartes de um colega, Gustavo Gazzinelli,
como “intervenções” indelicadas, “agressivas” e “furiosas” de um
“líder estudantil” e terminou por enaltecer o governador de Minas
Gerais Aécio Neves como “o crucificado”, “o sábio”, uma espécie de
líder-democrata-ecológico-conciliador-apartidário-visionário, o
“orgulho do avô”, dotado de “inteligência”, “elegância”, “delicadeza”,
“estrela” e acima de tudo, “um exemplo de coragem”.

Não pretendo deter-me na análise de tantos elogios que até entontecem.
Prefiro concentrar no argumento principal, o significado da palavra
“coragem”. Um passeio pela Wikipédia esclarece tudo [1]: “Coragem é a
habilidade de confrontar o medo, a dor, o perigo, a incerteza ou
intimidação. Pode ser dividida em física e moral. O homem sem
temeridade motiva-se a ir mais além. Enfrenta os desafios com
confiança e não se preocupa com o pior. O medo pode ser constante, mas
o impulso o leva adiante. Coragem é a confiança que o homem tem em
momentos de temor ou situações difíceis, é o que faz viver lutando e
enfrentando os problemas e as barreiras que colocam medo, é a força
positiva para combater momentos tenebrosos da vida.”

Essa primeira parte da definição não traz nenhuma surpresa, visto que
corresponde ao que todos nós imaginamos saber a respeito de “coragem”.
Mas a Wikipédia vai além:

“Um ser humano, por exemplo, pode "criar" coragem e ir a um bairro ou
cidade que seja muito perigoso, só pela necessidade de sobrevivência
ou para realizar algum sonho, vontade ou desejo. Por exemplo, alguém
vai a um estádio de futebol onde a maioria da torcida não torce para o
seu time. Nesse caso "surge" a coragem para realizar uma vontade.
Quando alguém vai a um bairro ou cidade muito perigoso porque namora
alguém que more lá. Nesse caso o desejo faz "brotar" coragem em alguém
que não teria. Muitos que trabalham pilotando motos (moto-boys, por
exemplo) nunca teriam coragem para isso, mas a necessidade de
sobrevivência "fala" mais alto.”

Tudo isso está escrito na Wikipédia, ao acesso dos editores de jornais
e revistas ou qualquer cidadão alfabetizado.

Então minha interpretação é que o Gustavo Gazzinelli foi
extraordinariamente corajoso ao levantar-se em meio a uma platéia
favorável ao anfitrião e chefe do executivo Aécio Neves, para defender
a vida e o meio-ambiente ameaçados pelas ações desse governador e seus
partidários e beneficiários.

Agora precisamos qualificar as reações de Aécio Neves e seu admirador
mais declarado, o editor Hiram Firmino estranhamente embevecido pelas
fases da lua. Antes, porém, vamos dar mais um passeio pela Wikipédia
para entender o significado de outra palavra útil no contexto:
“covardia”.

“Covardia é um vício que, convencionalmente, é visto como a corrupção
da prudência, oposto a toda coragem ou bravura. É um comportamento que
reflete falta de coragem; medo, timidez, poltronice; fraqueza de
ânimo; pusilanimidade ou ainda ânimo traiçoeiro. É o oposto de bravura
e de coragem. É algo que te força a não tentar, a não lutar por
simples medo, por indecisão, por fraqueza. É deixar de fazer algo,
desistir, abandonar pela metade pela falta de confiança em si próprio.
É atacar sabendo que o adversário não poderá defender-se.”

A Wikipédia novamente nos oferece a chave para a interpretação dos
fatos. Vou me limitar ao uso de dois aspectos da covardia: o “ânimo
traiçoeiro” e o “atacar sabendo que o adversário não poderá
defender-se”. Pergunto: que tipo de ânimo instilava Aécio Neves, o
chefe do poder executivo em Minas Gerais e o anfitrião da “Conferência
Brasil 2020”, quando avisou que “o contraditório faz parte da
democracia” e em seguida chamou Gustavo Gazzinelli nos seguintes
termos: “– Venha até aqui e faça livremente o seu protesto”? O vídeo
desse lance está disponível na internet, preparado pela própria
assessoria de Aécio Neves, para quem quiser estudar a pergunta, antes
de se precipitar para uma resposta [2].

Se ainda restar dúvida, a edição lunática ajuda a esclarecê-la. Ali
está descrito com todas as letras como Aécio parecia ter “um discurso
pronto, destinado a ele (Gustavo Gazzinelli)”. Mostra como Aécio
dirigiu-se pessoalmente ao Gustavo para lhe doutrinar sobre “respeito
e responsabilidade”, em outras palavras, para passar-lhe um sabão. Em
plena corrida presidencial, Aécio aproveita para conclamar Gustavo e
todo o resto do mundo ali representado para deixar de lado
“ideologias” e “partidos”, e juntar-se a ele na sua nova tarefa de
salvar o planeta que ele próprio está ajudando a destruir, como se ele
fosse um sujeito apartidário e sem ideologia e não simplesmente um
covarde oportunista.

Os verdadeiros campeões do respeito, da responsabilidade e da coragem
não precisam de lunáticos para defendê-los, nem de covardes para
ensinar-lhes o que se deve fazer.

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Referências e notas:

[1] http://pt.wikipedia.org/wiki/P%C3%A1gina_principal, acessado em
outubro de 2009.

[2] Compare a versão “oficial” do caso no vídeo produzido pelos
assessores do Aécio (http://www.youtube.com/watch?v=N-MniD0pmwM) com a
versão completa do caso produzida pelo Camarela Studios
(http://www.youtube.com/watch?v=IN8M91IagNM).

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