sexta-feira, 23 de outubro de 2009

ANO DE 2050

Documento traduzido por Cylene Dantas da Gama , gestora operacional do Instituto Serrano Neves e membro do DIALOG-AGUA - L FLORIDA CENTER OF STUDIES L- list server , onde este documento teve origem.


Ontem de manhã, ao levantar-me, vislumbrei sob minha porta um volume estranho, envolto em papel grosso e cinzento. Não era rígido e parecia uma liga de papel com metal. Não tinha selo, apenas meu nome e endereço claramente escritos. Curiosamente apressei-me em abrí-lo . Retirei páginas escritas a mão com letra que me era familiar. Mas o mais surpreendente eram a data e o conteúdo que, agora, compartilho com vocês, pois tal parece ter sido a intenção.
Estamos no ano de 2050 e acabo de completar 40 anos, mas minha aparência é a de alguém que tem pelo menos 55 anos. Sou portador de sérios problemas renais porque bebo pouca água. Suspeito de que não disponha de muito mais tempo de vida.Volto às lembranças de meus 15 anos. Era tudo tão diferente... Havia, então, muita árvore nos parques. As casas exibiam jardins formosos e eu podia me dar ao luxo de desfrutar um banho de mangueira, brincando no gramado, por até uma hora. Hoje temos de nos contentar com toalhas umedecidas em azeite mineral para limpar a pele. Antes, as mulheres ostentavam brilhantes e longas cabeleireiras, hoje temos de manter nossa cabeça raspada para assegurarmos a higiene sem água. Naquela época, meu pai lavava o carro da família com jato de mangueira. As crianças de hoje sequer sabem o que é uma mangueira.

Lembro-me dos anúncios de então que solicitavam "poupe água", nas rádios, televisão e jornais, mas não nos dávamos conta. Tínhamos a água como bem que não acabaria nunca. Agora sabemos que todos os rios, represas, lagoas, lagos e mantos aqüíferos estão irreversivelmente contaminados ou esgotados. Aprendíamos que a quantidade ideal de água para se beber no decorrer de um dia, eram 8 copos para uma pessoa adulta. Hoje ingeririmos apenas meio copo. A roupa é descartável, o que, por sua vez, resulta no aumento do lixo. Voltamos a construir latrinas, como em séculos passados.

Morávamos no deserto quando eu era criança, mas tivemos que nos mudar quando da falta d'água - no principio a água era levada por carros-pipa, mas isto acabou, em razão do custo ter-se tornado proibitivo. Apenas os ricos podiam pagar por esse desfrute. Pessoas de poucos recursos tomavam água contaminada. Muitos sofreram e faleceram em conseqüência de infecções gastrintestinais, enfermidades de pele e disfunção das vias urinárias. Não existem mais indústrias ou oficinas como as conhecíamos, o que gerou desemprego em massa. Dos poucos lugares para se trabalhar hoje, restam as indústrias dessalinizadoras, em que muitos trabalhadores preferem seu pagamento em água potável a qualquer outra remuneração. Assaltos são realizados com o fim único de roubar um cantil de água. A taxa de mortalidade entre crianças e velhos é enorme, conseqüência de problemas renais, desidratação, enfermidades virais e infecciosas. Meus pais e dois dos meus filhos já não estão neste mundo... morreram por isto. Nossa comida é 80% sintética. A pele ressequida de uma pessoa jovem de 20 anos, mostra a aparência de 35 anos.

A ciência busca uma solução, mas ela não existe. Não se pode fabricar água . O oxigênio foi drasticamente reduzido pela falta de árvores – o que afetou também o coeficiente de inteligência das novas gerações.
Inevitavelmente foi modificada a morfologia do espermatozóide em grande número de indivíduos e o resultado foi o nascimento de crianças com insuficiência respiratória, dentre outras mutações e deformações. Lembramos que o Governo nos cobra pelo ar que respiramos, 137 m3/dia por habitante adulto. Aqueles que não podem pagar são desalojados das zonas ventiladas, que estão dotadas de gigantescos pulmões mecânicos movidos a energia solar, cuja qualidade não é ideal, mas permite a respiração. A expectativa de vida é 40 anos.

Alguns países apresentam manchas de vegetação e até mesmo o rio adjacente, mas são áreas fortemente vigiadas pelo Exército da Água que se tornou tesouro mais cobiçado do que ouro e diamante. Aqui onde estou, por outro lado, não temos árvores, porque quase nunca chove. Quando se registra alguma precipitação é de chuva ácida. As estações do ano foram severamente alteradas pelas experiências atômicas remanescentes do século XX, entre outras causas. Desde então, já se preconizava "cuidemos do meio-ambiente".

Quando minha filha me pede que lhe fale da minha juventude, descrevo a beleza dos bosques, falo das chuvas de verão, das flores e do prazer que se desfrutava de se poder tomar banho sem medir a água, que se podia beber quanta água quisesse... e falo do aspecto saudável que as pessoas tinham. Ela me pergunta por que a água se acabou e, então, sinto um nó na garganta. Não posso deixar de sentir culpa. Pertenço à geração do desperdício - são decorridos apenas 25 anos desde quando éramos advertidos: "gôta a gôta a água se esgota". Não dávamos a devida importância. Agora nossos filhos pagam um alto preço pela nossa negligência.

Por favor cuidemos da água e da energia! Vamos fazê-lo por nós mesmos e pelos filhos de nossos filhos.
Mensagem assinada por minha filha.

The original message, in Spanish , has come from the DIALOG-AGUA-L- CES.FAU.EDU list serv , which I belong to. The appeal is evident and touching. We thought it could be a simple and nice way to praise Water and environment on March 22. Cylene Dantas da Gama *