terça-feira, 11 de maio de 2010

Na guerra por Paracatu, canadenses usam armas químicas

Na guerra por Paracatu, canadenses usam armas químicas

Por Sergio U. Dani, de Göttingen, Alemanha, em 9 de maio de 2010

Paracatu é um município de 8232 km2 (cerca de um terço do território da
Palestina, um quinto do território da Suíça), na região sudeste do Brazil. A
sede administrativa está localizada no centro do município e concentra a
maioria da população, estimada em cerca de 90 mil habitantes no ano de 2010.

O nome do município, que é o mesmo da sua sede e do principal rio da região,
deriva da língua tupi-guarani: 'pará' ('opará') significa o mar em geral,
rio caudaloso + 'catu', bom, daí Paracatu significar um rio bom, navegável,
piscoso*.*


Até o início da tradição européia, no século 17, o território era habitado
pelo povo Bacuen. Esse povo indígena sofreu os processos de dominação
cultural, extermínio físico e expulsão de seu território pelos primeiros
exploradores da tradição 'bandeirante' que chegaram a Paracatu em busca do
ouro.

O apelido que os exploradores deram aos Bacuen, e pelo qual até hoje essa
primeira nação paracatuense é conhecida, reflete a primeira violência de
registro histórico praticada contra os povos nativos do lugar: 'Tapuios',
que em tupi significa 'bárbaros', 'inimigos'. De 'taba' – aldeia, e 'puir' –
fugir: 'os fugidos da aldeia', os que fazem 'tapuiadas' na 'tapuirama'.

As violências e as injustiça praticadas contra os Bacuen ficaram pouco
visíveis no registro histórico e fóssil, mas deixaram sinais na tradição
oral, como distrações em meio às disputas entre bandeirantes e exploradores
rivais, tanto no Brasil, como nas cortes portuguesa, inglesa e além.

Os bandeirantes e exploradores encontraram ouro em abundância nos aluviões
do córrego a que chamaram de 'Rico'. A descoberta atraiu aventureiros de
todas estirpes e todos credos e despertou a cobiça dos poderes nas
metrópoles. Eram tempos de mercantilismo, crescimento econômico,
industrialização e competição entre potências consolidadas e rivais
emergentes. Ainda não era chegado o tempo dos direitos humanos e do
desenvolvimento sustentável. Mesmo assim, sempre houve quem se importasse
com os Bacuen e a proteção de seu habitat natural, como que imbuídos do
dever da resistência.

O principal núcleo urbano de Paracatu desenvolveu-se em torno do Córrego
Rico. Outros núcleos se formaram em torno de outros córregos e ribeirões
tributários do rio Paracatu. Esses tributários foram rebatizados de 'santos'
pelos colonizadores, missionários e evangelizadores de tradição cristã que
acompanharam os exploradores: os córregos de Santo Antônio, São Domingos e
Espírito Santo, e os ribeirões de Santa Rita, Santa Isabel e São Pedro. São
as 'santas águas de Paracatu', bens tão sagrados para os Bacuen quanto para
os primeiros colonizadores.

Reações e cautelas contra o processo de extermínio e dominação sempre
existiram, mas apenas tornaram-se mais visíveis a partir da chegada do
capital minerador transnacional em Paracatu, ao final da década de 1980.
Esse fato determinou o término do garimpo do ouro de aluvião e o início da
mineração em rocha dura, causando grave impacto sócio-ambiental.

A primeira reação foi a dos milhares de garimpeiros artesanais de Paracatu,
que se viram impedidos de trabalhar nos córregos da região e expulsos de
seus territórios. A reação dos garimpeiros foi neutralizada pelos poderes de
governo e do capital minerador transnacional. Foi uma verdadeira operação
judicial, policial-militar e ideológica, em que forças do estado foram
transformadas em aparato repressor contra os garimpeiros de Paracatu e a
favor de uma mineradora transnacional.

A segunda reação veio duas décadas depois, com o anúncio do projeto de
expansão da mina de ouro a céu aberto em rocha dura pela mineradora
canadense Kinross. Em 2007, a Fundação Acangaú publicou no Jornal 'O Lábaro'
o seu primeiro relatório independente sobre os riscos e impactos do projeto
de expansão, dando início a um movimento de resistência ao projeto.

Diferentemente da reação dos garimpeiros, o movimento iniciado pela Fundação
Acangaú e apoiado pelo Instituto Serrano Neves baseia-se na divulgação de
informação científica de boa qualidade e na proposição de ações nas esferas
administrativas e judiciais.

O movimento cresceu apoiado na força da internet e constituiu uma verdadeira
'Organização para Libertação de Paracatu' (OLP), congregando pessoas e
instituições locais, nacionais, estrangeiras e internacionais contra a
prepotência do capital que financia a corrupção e o genocídio.

Essa OLP representa as forças de reação contra a corrupção e o genocídio em
curso em Paracatu. Os corruptores e genocidas carregam a bandeira do Canadá
e usam armas invisíveis e mortíferas: os pagamentos facilitadores, o arsênio
e o cianeto. Seu objetivo é se apoderar das reservas de ouro sob o
território de Paracatu. Para alcancar seu objetivo está envenenando, matando
e expulsando milhares de paracatuenses.

Curiosidade:

A Fundação Acangaú para Conservação e Uso Sustentável dos Ecossistemas
Naturais foi criada em 1991, por cientistas e empreendedores brasileiros e
alemães. A data marca também a época em que a região do alto ribeirão Santa
Isabel e seu vale readquiriram uma denominação indígena: Acangaú, de
'acanga', cabeça + 'ú', poço, fonte ou rio de água potável, 'rio da cabeça'.
Acangaú é o renascimento da força e tradição de um povo que resiste à
dominação.