terça-feira, 15 de setembro de 2009

Pouco arsênio já é muita gripe aviária, suína e desumana

Pouco arsênio já é muita gripe aviária, suína e desumana

Por Sergio U. Dani, de Göttingen, Alemanha

Mesmo em baixíssimas concentrações o arsênio enfraquece as defesas
naturais do organismo contra o vírus da gripe, aumentando a
susceptibilidade individual, a gravidade e o número de mortes pela
doença, afirmou a jovem pesquisadora americana, Courtney Kozul, autora
de um artigo publicado este ano na revista científica Environmental
Health Perspectives [1].


"Centenas de milhões de pessoas em todo o mundo estão expostas a
níveis de arsênio acima dos valores recomendados e por isso devemos
nos preocupar com o impacto da exposição ao arsênio sobre uma
potencial pandemia da gripe,” afirmou Kozul.

Infecções respiratórias com virus influenza tipo A são responsáveis
por milhares de mortes anualmente. A recente epidemia de influenza A
H1N1 (gripe suína) já afetou mais de 254.206 pessoas e matou pelo
menos 2.837, conforme dados estatísticos acumulados da Organização
Mundial da Saúde-OMS (veja tabela). Como já não se solicita aos países
que testem e notifiquem os casos individuais, o número de casos
notificados está abaixo do número real de casos.

Tabela 1 - Dados acumulados da pandemia da gripe suína (influenza tipo
A/H1N1) (30 de agosto de 2009)
Região - Casos (*) - Mortes
Escritório regional da OMS para as Américas (AMRO) - 116.046 - 2.234
Escritório regional da OMS para o Pacífico ocidental (WPRO) - 63.895 - 279
Escritório regional da OMS para a Europa (EURO) - Acima de 46.000 -
Pelo menos 104
Escritório regional da OMS para a o sudeste da Ásia (SEARO) - 19.362 - 188
Escritório regional da OMS para a África (AFRO) - 3.872 - 11
Escritório regional da OMS para o Mediterrâneo oriental (EMRO) - 5.031 - 21
Total - Acima de 254.206 - Pelo menos 2.837
(*) Como já não se solicita aos países que testem e notifiquem os
casos individuais, o número de casos notificados na realidade
subestima o número real de casos. Fonte: Organização Mundial de Saúde.

No estudo de Kozul, camundongos expostos a arsênio e em seguida
infectados com uma dose sub-letal de vírus H1N1 não conseguiram montar
uma resposta imune apropriada. Nos camundongos que ingeriram 100 ppb
(partes por bilhão) de arsênio na água de bebida por cinco semanas, a
resposta imune contra a infecção viral foi inicialmente inadequada e
quando finalmente uma resposta apareceu alguns dias depois, ela veio
“robusta demais e tarde demais”, explicou o Dr. Joshua Hamilton, líder
da equipe do Laboratório de Biologia Marinha de Woods Hole onde foi
realizado o estudo. A morbidade durante o curso da infecção foi
significativamente maior entre os camundongos expostos ao arsênio,
quando comparados com os animais normais, concluiu o cientista.

"Arsênio é um agente imuno-modulatório conhecido, mas nosso trabalho é
o primeiro a mostrar que a exposição pela água de beber pode
comprometer a resposta a uma infecção respiratória subseqüente.
Baseado no nosso modelo, parece que a exposição ao arsênio conduz a
uma susceptibilidade aumentada e maior gravidade da infecção
respiratória por influenza tipo A", disse Kozul. Coautores do trabalho
incluem os doutores Richard Enelow e Kenneth Ely.

Arsênio na ração poderia ter disparado as epidemias das gripes aviária e suína?

O que muita gente não sabe é que nos Estados Unidos, um dos países com
maior número de casos registrados de gripe suína, uma formulação
contendo arsênio orgânico – roxarsone – é aprovada para uso como
aditivo em rações de aves e suínos. Cerca de 70% dos frangos de corte
recebem roxarsone em suas rações diárias. Eles excretam parte do
arsênio, mas outra parte fica retida nos seus tecidos, particularmente
no fígado, tanto na forma orgânica como na forma inorgânica.

Para verificar quanto de arsênio permanece nas carcaças dos animais, a
pesquisadora Tamar Lasky e seus colegas do Departamento de Agricultura
em Washington, D.C. analisaram dados do USDA sobre a concentração de
arsênio nos fígados de mais de 5.000 frangos, 2.700 perús, 5.500
porcos e 7.000 bois, ovelhas e outros animais.

A concentração média de arsênio nos fígados de frangos jovens foi 0,39
partes por milhão (ppm). As concentrações de arsênio no fígado de
frangos, perús e porcos “maduros” variaram de 0,10 a 0,16 ppm, e a
concentração média encontrada nas outras espécies foi 0,10 ppm.

Os pesquisadores então extrapolaram quanto de arsênio tóxico poderia
ser ingerido através do consumo de carne de frango, considerando uma
dieta média de um cidadão americano. Um adulto típico pode ingerir
3,62–5,24 microgramas de arsênio inorgânico por dia, considerando
somente a carne de frango como fonte, conforme relatou Lasky e seus
colegas, num trabalho publicado na revista Environmental Health
Perspectives [2].

Entre os 1 por cento da população que mais come carne de frango nos
Estados Unidos, cada pessoa pode ingerir entre 21,13 e 30,59
microgramas de arsênio inorgânico diariamente, assim estimaram os
pesquisadores. Essa dose de arsênio inorgânico não excede o limite
sugerido pela Organização Mundial de Saúde, que é de 2 miligramas por
quilo de peso corporal por dia, mas já representa “boa parte da
ingestão diária tolerável” , disseram os pesquisadores. Outras fontes
de arsênio incluem a água bebida e o ar respirado.

"Mesmo que seja arsênio orgânico o que está sendo dado para os frangos
comerem, no final do dia eles apresentam muito mais arsênio inorgânico
no corpo," disse John F. Stolz, um microbiologista da Universidade
Duquesne em Pittsburgh. Esse fato está gritando por mais pesquisa
sobre como o corpo processa o arsênio.

Sem contar com os efeitos fisiológicos sobre os animais de criação e
os consumidores, aditivos alimentares contendo arsênio introduzem
toneladas de arsênio orgânico no meio ambiente todo ano, diz Stolz.
Uma parte desse arsênio é convertida em formas inorgânicas, que podem
contaminar as fontes de água, ele observa.

Probleminha no Brasil, problemão em Minas Gerais

O composto de arsênio do roxarsone também é autorizado para uso em
aditivos alimentares no Brasil, só que no Brasil ele é conhecido pelo
nome comercial de ácido 3-nitro [3]. O produto é fabricado no México
[4].

O problemão mesmo está em Paracatu, onde crianças são expostas a uma
dose diária de arsênio de uma mina de ouro que estão 10 vezes acima do
limite tolerável da OMS. A principal fonte de liberação de arsênio no
mundo é a mineração de ouro. Os depósitos de ouro ocorrem junto com
arsenopirita, principal mineral de arsênio. Somente a mina de
Paracatu-MG, Brasil, operada pela mineradora canadense Kinross Gold
Corporation será responsável pela produção de 1 milhão de toneladas de
arsênio inorgânico nos próximos 30 anos. Isso corresponde a 25% de
todo o arsênio produzido pelo ser humano em toda a era industrial,
conforme apurado em um estudo publicado em 2003 por Fengxiang Han e
colaboradores, da Universidade Estadual do Mississipi, Estados Unidos
[5].

Embora nenhum estudo epidemiológico dos efeitos da contaminação por
arsênio tenha sido conduzido em Paracatu, um estudo da incidência de
lepra ou hanseníase coloca a cidade como zona hiperendêmica da doença
[6]. Este estudo revelou uma elevada incidência de lesões cutâneas
entre as crianças e adolescentes de Paracatu. Quase a metade dos
estudantes examinados, 43,6% ou 7.450 estudantes apresentaram algum
tipo de lesão de pele. Em contraste, os autores estabeleceram o
diagnóstico de hanseníase em "apenas" 68 estudantes, o que já foi o
bastante para caracterizar uma hiperendemia de hanseníase na cidade de
Paracatu. Apesar de os autores não terem considerado a possível
intoxicação crônica por arsênio e outros metais liberados pela
mineração a céu aberto na cidade, é sabido que a intoxicação crônica
por arsênio pode provocar o aparecimento de lesões de pele de grau e
aparência variáveis, queda da resistência às infecções e uma série de
outras doenças.

Os achados desse estudo, associados à comprovada presença de arsênio
em doses elevadas na cidade de Paracatu, proveniente da mina de ouro a
céu aberto na cidade constituem uma forte indicação de intoxicação
crônica por arsênio e uma justificativa muito forte para que estudos
epidemiológicos clínico-laboratoriais e atuarias da intoxicação
crônica por arsênio e metais pesados sejam conduzidos em Paracatu.


Referências:

[1] O artigo – Low dose arsenic compromises the immune response to
influenza infection in vivo Environ Health Perspect 117:1441–1447
(2009) – está disponível gratuitamente na internet:
http://www.ehponline.org/docs/2009/0900911/abstract.html

[2] O estudo da pesquisadora Tamar Lasky e colaboradores – Lasky, T.,
Sun, W., Kadry, A. & Hoffman, M. K. Mean total arsenic concentrations
in chicken 1989–2000 and estimated exposures for consumers of chicken.
Environ Health Perspect 112:18–21 (2004) – também está disponível
gratuitamente pela internet em:
http://www.pubmedcentral.nih.gov/picrender.fcgi?artid=1241791&blobtype=pdf

[3] Informação disponível em
http://www.saude.pr.gov.br/arquivos/File/vigilancia%20sanitaria
/Relatorio%20levantamento%20frango.pdf, acessado em setembro de 2009.

[4] Informação disponível em http://www.alpharma.com.mx/, acessado em
setembro de 2009.

[5] Han, F. X., Su, Y., Monts, D. L., Plodinec, M. J., Banin, A.,
Triplett, G. E. Assessment of global industrial-age anthropogenic
arsenic contamination. Naturwissenschaften 90:395-401 (2003).

[6] Ferreira IN, 2008. Busca ativa de hanseníase na população escolar
e distribuição espacial da endemia no município de Paracatu. – MG
(2004 a 2006). Tese de doutorado, Universidade de Brasília – UnB,
Faculdade de Ciências da Saúde. Resumo publicado por Ferreira IN,
Evangelista MSN e Alvarez RRA, na Revista Brasileira de Epidemiologia,
vol.10 no. 4 São Paulo Dec. 2007, acessível em:
http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1415-790X2007000400014&script=sci_arttext.

[7] Veja sinais do envenenamento fotografados em Paracatu:
http://alertaparacatu.blogspot.com/2008/09/envenenamento-foografado.html