terça-feira, 1 de setembro de 2009

Arsênio, um assunto global: Paracatu e o mundo num corredor da morte

Arsênio, um assunto global: Paracatu e o mundo num corredor da morte

Quem se importa com a América Latina – uma parte do nosso planeta – e
quem se importa com a população de Paracatu – uma parte da humanidade?
Solicita-se atenção e ação imediatas do mundo todo. Ninguém pode ficar
indiferente.

Sergio U. Dani (*)

Um genocidio está para acontecer em Paracatu, uma cidade da América
Latina, no Brasil. Com a licença obtida na última sexta-feira, 21 de
agosto, a canadense Kinross Gold Corporation está preparada para
liberar um milhão de toneladas de arsênio – o “rei dos venenos” – a
céu aberto e nos solos e cursos d’água que sustentam uma população de
90.000 pessoas. Um punhado de autoridades brasileiras coniventes apóia
esse genocídio, confiante na ausência de resistência de uma população
carente e desamparada.

A mineração de ouro é a atividade que mais libera arsênio para o
ambiente, pois os depósitos de ouro estão intimamente associados à
arsenopirita, o principal mineral de arsênio [1].

O lago que será formado para receber os rejeitos tóxicos resultantes
das atividades da Kinross em Paracatu nos próximos 30 anos deverá
armazenar algo em torno de 1,2 milhões de arsênio inorgânico [2].

A quantidade de arsênio inorgânico desta única mina de ouro equivale a
25% do total acumulado em toda a era industrial até o ano de 2000 [3];
é uma quantidade suficiente para causar doenças e matar 10 vezes a
população de 7 bilhões de seres humanos do planeta Terra [4].

Por mais incrível que possa parecer, todo esse arsênio será liberado
em cima da única fonte de água potável que abastece a população de
uma cidade de 90.000 habitantes, preparando o cenário para um
verdadeiro genocídio [5,6].

A volatilização do arsênio a partir de Paracatu inexoravelmente
contribuirá para o aumento da carga global de arsênio [7-10].

O assunto mineração em Paracatu transcende fronteiras nacionais, pois
configura inacreditável abuso e crime contra a humanidade, contra o
planeta , na contramão do pensamento sistêmico (Gramsci, Fritjof
Capra e outros) e quando constata-se que vivenciamos uma era de
redução e ameaça aos recursos naturais. E perguntamos, para que
servirá o ouro num mundo não mais sustentável?

A OMS foi alertada sobre esse genocídio em escala global, causado por
uma contaminação ambiental deliberada. Solicitamos providências junto
à OMS e outras instituições mundiais para para evitar esse genocídio e
a contaminação ambiental.

Acreditamos firmemente que cada um de nós tem a sua parcela de
responsabilidade na perpetração de tais crimes. Cada um de nós, dia
após dia, ano após ano, ao tolerar conviver com tais crimes, vendo que
estão sendo cometidos a nada fazendo para impedi-los.

Ninguém pode ficar indiferente. Estamos falando da nossa casa, do
nosso planeta, da sobrevivência da nossa humanidade..

(*) S. Dani é médico e doutor em medicina, escrevendo de Göttingen,
Alemanha. 25 de agosto de 2009.

Referências:

[1] Hurlbut, C. S. & Klein, C. Manual of Mineralogy, 20th ed. (1985).

[2] Henderson, R. D. Paracatu Mine Technical Report, Kinross Gold
Corporation, July 31, 2006, disponível em:
http://www.kinross.com/operations/pdf/Technical-Report-Paracatu.pdf,
acessado em 2009.

[3] Han, F. X. et al. Assessment of global industrial-age
anthropogenic arsenic contamination. Naturwissenschaften 90:395-401
(2003).

[4] Arena, J. M. & Drew, R. H., Eds. Poisoning. Fifth edition. Charles
C Thomas, Springfield, 1,128 pp. (1986).

[5] Polizzotto, M. L., Kocar, B. D., Benner, S. G., Sampson, M. &
Fendorf, S. Near-surface wetland sediments as a source of arsenic
release to ground water in Asia. Nature 454:505-8 (2008).

[6] Smith, A. H., Steinmaus, C., Yuan, Y., Liaw, J. & Hira-Smith, M.
M. High concentrations of arsenic in drinking water result in the
highest known increases in mortality attributable to any environmental
exposure, Proceedings of a Symposium: Arsenic – The Geography of a
Global Problem, Royal Geographical Society: Arsenic Conference, 29th
August 2007, apresentação disponível em:
www.geog.cam.ac.uk/research/projects/arsenic/symposium, accessed 2009.

[7] Tamaki, S. & Frankenberger, W. T. Jr. Environmental biochemistry
of arsenic. Rev. Environ. Cont. Toxicol. 124:79-110 (1992).

[8] Baker-Austin, C. et al. Extreme arsenic resistance by the
acidophilic archaeon 'Ferroplasma acidarmanus' Fer1. Extremophiles
11:425-34 (2007)

[9] Cernansky, S., Kolencík, M., Sevc, J., Urík, M. & Hiller, E.
Fungal volatilization of trivalent and pentavalent arsenic under
laboratory conditions. Bioresour. Technol. 100:1037-40 (2009).

[10] Qin, J. et al. Biotransformation of arsenic by a Yellowstone
thermoacidophilic eukaryotic alga. Proc. Natl. Acad. Sci. USA
106:5213-7 (2009).