sábado, 24 de abril de 2010

Mineradora polui as águas de Paracatu com arsênio

Estudo da UFMG comprova: Mineradora polui as águas de Paracatu com arsênio - Concentrações são muito altas e preocupantes, informam cientistas

Por Sergio U. Dani, de Göttingen, Alemanha, 18 de abril de 2010

Mais um estudo científico confirma a poluição grave e persistente das
águas de Paracatu com arsênio da mina de ouro operada pela mineradora
canadense RPM/Kinross Gold Corporation.

O estudo foi conduzido pela pesquisadora Patrícia Rezende, sob
orientação de Letícia Costa e Cláudia Windmöller, ambas
professoras-doutoras do Departamento de Química da UFMG [1,2].

As pesquisadoras mediram a quantidade de arsênio nos sedimentos dos
córregos e rios do município. Segundo elas, a análise da poluição das
águas pelo método de dosagem dos poluentes nos sedimentos revela
informações mais confiáveis que a simples dosagem na água, pois os
poluentes carregados pela água ficam retidos nos sedimentos de forma
mais duradoura.

"É como se os sedimentos contassem a história da água que passa",
explica Rezende.

Os sedimentos dos córregos e rios de Paracatu estudados pelas
pesquisadoras apresentaram uma concentração natural média abaixo de 2
mg de arsênio por quilo. Após a passagem dos córregos e rios por
Paracatu, a concentração média aumenta para 150 mg de arsênio por
quilo, podendo chegar a mais de 1000 mg por quilo.

As concentrações mais altas foram observadas no ponto de amostragem
PTE023, no Córrego Rico. Uma medição feita em Agosto de 2008 indicou
uma concentração de 1116 mg de arsênio por quilo de sedimento, o que
corresponde a uma concentração 190 vezes maior que a estipulada pela
legislação do CONAMA (Conselho Nacional de Meio Ambiente) e 744 vezes
maior que a concentração média natural dos rios e córregos da região.

A maior parte do arsênio detectado no sedimento do leito do Córrego
Rico neste ponto está na forma de arsenopirita, mineral presente na
mina de ouro na proporção média de 1 kg por tonelada de minério [3].
Neste ponto também foi detectado o argilomineral ilita. Esse mineral
também é encontrado na mina de ouro operada pela canadense Kinross, e
o ponto de amostragem está a jusante da mina.

O arsênio da mina de Paracatu pode alcançar os córregos de duas
maneiras principais: pela deposição da poeira contaminada e pela
drenagem ácida da mina e da lagoa de rejeitos. Os resultados da UFMG
contradizem os resultados de auto-monitoramento realizados pela
mineradora e aceitos pelos órgãos públicos de controle ambiental.

“A contaminação por arsênio atingiu teores superiores ao nivel 2 do
CONAMA (17 mg.kg-1) em Paracatu. Essa região apresenta teores de
arsenopirita naturais elevados, que estão sendo liberados para o meio
ambiente devido à atividade de mineração de ouro” – informam as
pesquisadoras.

Não é a primeira vez que estudos científicos comprovam a poluição das
águas de Paracatu pela mineradora canadense Kinross. Estudo realizado
pelo pesquisador Giovani Melo e publicado em 2008 em Paracatu já
revelava uma contaminação de gravidade extrema, com repercussões sobre
a saúde da população [4,5].

Referências:

[1] Rezende PS. 2009. Avaliação da mobilidade e biodisponibilidade de
metais traço em sedimentos da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco.
Tese de Mestrado em Química. Universidade Federal de Minas Gerais,
UFMG, Brasil.

[2] Moura PAS, Rezende PS, Nascentes CC, Costa LM, Windmoeller CC.
Quantificação e distribuição de arsênio e mercúrio em sedimentos da
Bacia do Rio São Francisco. In: XXII Encontro Regional da Sociedade
Brasileira de Química, MG, 2008, Belo Horizonte.

[3] Henderson RD. 2006. Paracatu Mine Technical Report. Kinross Gold
Corporation, July 31, 2006. Disponível na internet em:
http://www.kinross.com/operations/pdf/Technical-Report-Paracatu.pdf

[4] Dani SU. Agora está confirmado: RPM/Kinross polui água de Paracatu
com metais pesados. Níveis são alarmantes e contaminação já atinge as
áreas vizinhas da mina. Jornal Alerta Paracatu, Ano I, número 00,
edição especial de junho de 2008, p. 23. Fundação Acangaú, Paracatu,
MG, Brasil.

[5] Melo G. Contaminação é de gravidade extrema, diz especialista.
Jornal Alerta Paracatu, Ano I, número 00, edição especial de junho de
2008, p. 24. Fundação Acangaú, Paracatu, MG, Brasil.