segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Um conselho por um dólar

Um conselho por um dólar

Por Serrano Neves* (publicação original em 2001)

"Einstein dificilmente teria desenvolvido a teoria da relatividade se não acreditasse que Deus governava o Universo por leis razoavelmente simples. (Mário Henrique Simonsen, Ensaios Analíticos, EFGV, 1994, pag. 17)"

Começo a me sentir um tanto quanto egoísta por pensar que meus descendentes devem viver num mundo razoável e agradável.

Quando criança eu pescava, nadava e bebia da água de um pequeno curso d’água conhecido por Córrego Rico - Paracatú-MG, nome que lhe foi dado, deduzo pelo que assistia, por pais de família desempregados que nele garimpavam ouro para poderem tocar adiante suas cozinhas.

Garimpo braçal: uma enxada de cabo longo retirava de um poço cavado no leito o substrato aurífero que era amontoado para, ao final passado na bica, lavado o pano na bateia e apurado o metal. Trabalho solitário, cansativo, que rendia o entorno de uma grama por dia.

O córrego corria pela altura das canelas, e os poços de garimpo tinham metro, metro e meio de profundidade, fazendo um convite para o banho. No entanto, as crianças respeitavam o trabalho do cidadão, aguardando que, conseguindo outro trabalho ou dando o poço por esgotado, o liberasse para diversão da meninada.

As margens do Córrego Rico eram ricas em vegetação. Seu leito largo abrigava nas faixas de cascalho rolado as cacimbas de onde saia a água potável, colhida em cuias, depositadas e transportadas em potes de barro.

Até hoje brinco dizendo que água potável é aquela que o cidadão simples coloca no seu "pote".

Ainda adolescente minha vida mudou de curso e me levou para longe, mas o córrego continuou fazendo correr suas águas nas minhas lembranças.

Durante mais de vinte anos garimpei trabalho no leito da vida e pude comprar um carro usado.

Conferido na oficina, polido e abastecido, coloquei a família dentro e tomei a estrada com destino ao Córrego Rico. Queria que meus filhos conhecessem as lembranças que eu embalava com tanto carinho.

Cheguei pelo meio da tarde, e sob protestos de cansaço toquei o carro até o córrego.

Na aproximação a desolação tomou conta de mim: uma mineradora havia se instalado em nome do progresso e da arrecadação, como soube mais tarde. O cascalho jazia em centenas de montes que um fio de água nojenta teimava em contornar.

Sem cacimbas, sem lavadeiras, sem crianças nadando, sem vegetação nas margens.

Reencontrei algumas pessoas do tempo passado e elas só me respondiam, tristes: "o córrego acabou".

Chorei.

E pensei que, se eu tivesse permanecido criança e ficado lá, ao invés de procurar uma economia de vida que me cercasse, prioritariamente, de bens materiais, o córrego ainda estaria lá, rico.

Descobri que fui um predador por inconsciência de que os bens materiais que a mim chegavam provinham fontes que estavam, e estão, sendo esgotadas. Nada fiz porque, como muitos, talvez confiasse na inesgotabilidade.

Fazem alguns anos que penso de modo diferente e me empenho em pelo menos deter a degradação ambiental, como penso, também, que a própria natureza, com o ciclo das águas, apresenta um interessante modelo para o "ciclo do dinheiro", qual seja: a fonte de onde sai o dinheiro precisa de "chuva" para se recompor e ser perenizada.

O interessante do livro do Simonsen é que, dos quinze capítulos, apenas os cinco últimos são dedicados ao Estado e à Economia. Os dez primeiros se dedicam a alargar o horizonte do pensamento para que o homem perceba que é mero usufrutuário da natureza.

A um economista e a um jurista importa tanto conhecer a estética diatônica (pág. 85, ob. cit.) quanto importa saber que não existe mundo econômico e mundo jurídico onde coisas aconteçam independentes das variáveis ambientais e das pessoas que zelam para que, na equação ambiental, nenhuma variável se torne um determinande zero e anule tudo.

Melhor, então, que nada seja feito para irritar a Mãe Natureza, pois ela é tanto rica, farta e despreendida, quanto impiedosa.

Por um dólar: GOLD SAVE THE GREEN.

Serrano Neves* é Procurador de Justiça do Ministério Público e Presidente do Instituto Serrano Neves

www.serranoneves.nom.br

serrano@serrano.neves.nom.br