quarta-feira, 19 de março de 2014

Cadê o estudo epidemiológico?


Por Sergio Ulhoa Dani, de Bremen, Alemanha.

Uma audiência pública foi realizada ‘de surpresa’ ontem, dia 18.03.2014 na Câmara Municipal de Paracatu, MG, Brasil. Na pauta: ‘apresentação de um estudo epidemiológico sobre contaminação por arsênio’.

‘Para um estudo epidemiológico num território habitado, parece que faltou incluir pessoas’, comentou Serrano Neves, ao ler uma nota que circula na internet sobre o teor (ou falta de teor?) da audiência.

Já se vão mais de 5 anos desde que solicitamos – mediante um pedido administrativo e uma Ação Civil Pública – a realização de um estudo epidemiológico clínico-laboratorial da intoxicação crônica da população pelo arsênio e outros venenos liberados pela mineradora canadense Kinross Gold Corporation (TSE-K; NYSE-KGC) na cidade de Paracatu e região.

Esse tempo é demasiado longo para um desenlace tão exdrúxulo e pífio. Isso foi o melhor que puderam fazer com o tempo e o dinheiro público investido? Um estudo envolvendo milhares de pessoas sob risco de intoxicação crônica por arsênio com sérias consequências à saúde não pode ser tratado com negligência.

Por que usaram equipamentos e medições ambientais da própria empresa poluidora, a Kinross?

Qual a metodologia clínico-laboratorial e epidemiológica utilizada para refutar a hipótese nula: nenhuma intoxicação crônica da população?

Qual o número mínimo de pacientes recrutados e efetivamente examinados?

Que grupos-controles foram utilizados?

Onde estão os resultados preliminares, usando metodologia adequada?

Onde estão as medidas de morbimortalidade relacionada ao arsênio no compartimento humano?

Qual é a incidência e prevalência da arsenicose e suas manifestações em Paracatu?

O estudo foi submetido a uma revista especializada com corpo editorial, ou publicado?

Foros adequados para discussão de estudos científicos são os congressos, as revistas científicas com corpo editorial e a correspondência entre cientistas. O julgamento do mérito de um estudo é atribuição dos pares científicos, não dos políticos.

Como costuma acontecer em ‘audiências’ políticas sobre assuntos científicos, também essa ‘audiência surpresa’ parece ter atingido um objetivo: confundir e esquivar, em vez de enfrentar e esclarecer.

Uma coisa é certa: ‘a ausência da prova não é prova da ausência’.