sábado, 17 de novembro de 2012

Incidência de câncer em Paracatu é altíssima, afirma médico especialista.


Incidência de câncer em Paracatu é altíssima, afirma médico especialista.


Por Sergio U. Dani, de Heidelberg, Alemanha, em 16 de novembro de 2012.

Domingos Boldrini Júnior, médico especialista em câncer do Hospital de Câncer de Barretos, afirmou ontem que o número de pacientes com câncer em Paracatu é muito alto para o tamanho da cidade.

"A incidência da doença em Paracatu é altíssima”, afirmou Boldrini, durante um encontro na cidade.

Atualmente, 425 pacientes de Paracatu estão em tratamento no Hospital do Câncer em Barretos, cidade localizada a mais de 550 km de distância de Paracatu. "E esse número aumenta a cada dia", alerta Boldrini.

O arsênio da mineração de ouro da mineradora canadense Kinross Gold Corporation é o agente carcinogênico ambiental mais potente que se conhece. Paracatu tornou-se uma das cidades mais poluídas por arsênio do planeta, graças às atividades da mineradora de ouro iniciadas em 1987, apoiadas pelos governos municipal, estadual e federal do Brasil, e pelo governo do Canadá, através da EDC-Export Development Canada.

Uma Ação Civil Pública (ACP) proposta pela Fundação Acangau defende que a mineração de ouro em Paracatu é economicamente inviável, ecologicamente insustentável e socialmente injusta. Esta ACP pediu a realização de um estudo epidemiológico clínico-laboratorial e a interrupção imediata do envenenamento crônico da população de Paracatu, mas está suspensa, por decisão judicial e com a anuência do Ministério Público, desde 2009.

"A injustiça e a violência que vêm sendo perpetradas sobre o povo de Paracatu e sobre o meio ambiente clama aos céus", afirmou Frei Gilvander Moreira, em fevereiro de 2010. "É um pecado contra o Espírito Santo e um crime hediondo", concluiu.

Com a tecnologia médica atualmente disponível, já é possível provar o envenenamento crônico por arsênio e sua relação causal com diversos tipos de câncer. A indenização paga para uma pessoa envenenada crônicamente por arsênio varia entre 1,5 milhão de dólares e 6 milhões de dólares, segundo estimativas da EPA-Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos.

Estudo financiado pela própria mineradora Kinross e publicado em uma revista especializada em 2011 mostrou que o arsênio liberado por suas atividades de mineração em Paracatu está bioaccessível. Como não existe dose segura para uma substância cancerígena como o arsênio, toda a população da cidade está exposta ao risco.

Estudos epidemiológicos realizados em condições semelhantes às de Paracatu em outras regiões do mundo indicam que cerca de 10% da   população deve morrer de câncer por causa do arsênio liberado pela mineração de ouro na cidade, enquanto o restante da população poderá desenvolver outras doenças causadas pelo arsênio.

O prejuízo causado pela mineradora em Paracatu e o valor total das indenizações somente nos casos de câncer é estimado entre 127 bilhões de dólares e 510 bilhões de dólares. A conta do prejuízo total é maior, considerando-se a persistência e dispersão do veneno no ambiente.

Com as evidências de genocídio, espera-se que a ACP seja desengavetada  e outras ações indenizatórias sejam propostas contra a mineradora Kinross e os governos do Brasil e do Canadá.

Os advogados de Paracatu e do mundo apenas começam a descobrir a verdadeira mina de ouro da cidade.

Fontes:

. http://paracatu.net/view/4148-professor-da-usp-diz-que-incidencia-de-cancer-em-paracatu-esta-acima-da-media.

. Ono FB, Guilherme LR, Penido ES, Carvalho GS, Hale B, Toujaguez R, Bundschuh J. 2011. Arsenic bioaccessibility in a gold mining area: a health risk         assessment for children. Environ Geochem Health 34:457-65.