quinta-feira, 8 de março de 2012



Contaminado pelo arsênico

Já relatei minhas impressões sobre a mineração. Não raramente, os temas pairavam no quesito “arsênico”, que, por ser desconhecido em suas propriedades pela população, tem o debate sufocado pelos detentores do lucro sem escrúpulos em sua ética utilitarista, à custa da vida de muitos.

Por não residir mais na cidade, não teria motivo de procurar envolvimento nessa questão, como se desejasse algo. Mas quem me conhece entende minha indignação diante do que considero errado, injusto e, neste caso, desumano e cruel com a comunidade – e que também me afetou, conforme o relato a seguir.


Há uma semana, procurei uma nutricionista para perder peso.

Ela propôs realizar um exame que apontaria a tolerância do meu organismo quanto a alimentos, verificando também o nível de vitaminas, para construir uma dieta ideal. Ele foi realizado nesta terça-feira (6 de março), em Gramado, na Serra gaúcha.

Uma verificação acerca dos metais espantou a profissional: o alto nível de ARSÊNICO. Antes de ela colocar sua dúvida sobre o motivo, expliquei-lhe ter morado em uma cidade cercada por uma mineradora que realizava sua extração a céu aberto, onde havia rumores de contaminação do ar em demasia. Ao ouvir meu relato, respondeu ter sentido – coisa que qualquer paracatuense sabe.

Segundo ela, o arsênico ataca a mitocôndria das células, comprometendo a produção de energia. E isso veio ao encontro das minhas queixas de extrema fadiga – síndrome da fadiga crônica – definiu. Além disso, acrescentou que, com o tempo, o arsênico pode provocar câncer e manchas na pele. Sobre tais sintomas, li a respeito em um dos artigos de Sérgio Ulhoa Dani, no blog “Alerta Paracatu”.

Por orientação da nutricionista, farei a análise do arsênico por meio de exames de sangue e de urina. Tranquiliza-me o fato de a dieta poder eliminar o veneno do meu organismo. Porém, existe o risco de ele ficar “escondido” em algum órgão.

Aí, pergunto: se em um ano de Paracatu o arsênico “colou” no meu organismo, o que será dos filhos dessa terra? Vale a pena se sujeitar à questão econômica, à submissão, ao poderio de mais 30 anos de mineração em troca de um mal para comprometer as futuras gerações?

É preciso os líderes da comunidade deixarem qualquer pretensão pessoal e política de lado, e rever a “novela” da mineração sem comprometer a riqueza maior do futuro da cidade, que é a sua própria gente.

Por fim, a comunidade não pode ser barganhada com dinheiro a projetos e espetáculos cuja intenção maior é a de “tapar o Sol
com a peneira”. Afinal, estamos tratando da vida de cada um – algo indiscutivelmente impagável.

Márcio Cavalli
Jornalista profissional – DRT/DF nº 9.297