quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Exercício do direito de resposta

Exercício do direito de resposta

Por Sergio Ulhoa Dani, de Göttingen, Alemanha, Agosto de 2010

Resposta por absurdo

Por Sergio Ulhoa Dani, de Göttingen, Alemanha, Agosto de 2010

“Assim como eu não posso aceitar elogios por exercer meus papéis de médico, cientista e cidadão, tampouco posso aceitar insultos, ameaças, calúnias e difamações. Essas calúnias e difamações revelam desinformação, malícia, ignorância e desprezo aos papéis sociais da ciência e da cidadania. Mas mostram, por absurdo, com quem está a verdade.”

José Edmar Gomes, em seu editorial publicado pelo jornal “O Movimento” e reproduções do seu texto (“Mineração, arsênio... com quem está a verdade?”, por Florival Ferreira, publicado no “Paracatu.net”) questionam sobre minha idoneidade como médico, cientista e cidadão.


Usam termos como “cientista louco”, “terrorista” e “perturbador da ordem”, e recomendam que “mandem prender-me ou confinar-me”. Levantam ainda suspeitas sobre a minha atuação e a da Fundação Acangaú, que teríamos recebido dinheiro da mineradora Kinross para calar diante do verdadeiro genocídio que estamos revelando para uma população atônita e indefesa.

Conheço os jornalistas José Edmar Gomes e Florival Ferreira e sei que a intenção deles não foi de caluniar-me em seus artigos, mas mostrar, através do “raciocínio pelo absurdo” que a possibilidade de eu estar certo e a mineradora errada resiste até ao absurdo. Eles simplesmente destruíram e ridicularizaram, com seus artigos, as calúnias e as difamações usadas contra mim pelos que defendem a mineradora. Por isso, dirijo essa resposta não ao José Edmar e ao Florival, mas àqueles que teimam em caluniar-me.

Assim como eu não posso aceitar elogios por exercer meus papéis de médico, cientista e cidadão, tampouco posso aceitar insultos, ameaças, calúnias e difamações. Esss calúnias e difamações revelam desinformação, malícia, ignorância e desprezo aos papéis sociais da ciência e da cidadania. Desconhecem que quando o Estado falha no papel de proteger seus cidadãos, nós podemos e devemos assumir esse papel.

Os órgãos dos governos federal, estadual e municipal traíram nossa confiança quando ocultaram os riscos à saúde e ao ambiente nas diversas vezes em que foram concedidas licenças de exploração de ouro a céu aberto em Paracatu, desde 1987. Nessa época, eu era um estudante de medicina em Belo Horizonte, depois estudante de doutorado na Alemanha (1991-1994), e cientista no Japão (1995-1996). Assim como os milhares de habitantes de Paracatu, eu nunca fui informado sobre os verdadeiros riscos da mineração ou consultado sobre a conveniência de termos uma mina de ouro a céu aberto em Paracatu.

Retornei ao Brasil em 1996, e fui trabalhar como cientista e professor universitário em São Paulo (1997-2002). Somente em 2002 fui convidado pela FEAM-Fundação Estadual de Meio Ambiente para aplicar uma medida compensatória dos impactos da mineração em Paracatu, através da Fundação Acangaú. Os recursos dessa medida compensatória não foram doados pela mineradora RPM, eles foram uma obrigação legal. Portanto nós nunca precisamos de favores da mineradora, nem tampouco devemos qualquer coisa a ela. Por isso mesmo somos independentes dela.

Já a tarefa de entender os impactos da mineração de ouro em Paracatu começou em 2007, a partir de um convite feito a mim e à Fundação Acangaú pelo Ministério Público do Estado de Minas Gerais, na pessoa do Promotor Carlos Eduardo Ferreira Pinto. Nessa época eu trabalhava como cientista principal e diretor-presidente da Excegen Genética SA, empresa de biotecnologia que nada tem a ver com mineração. Ainda assim, encontrei tempo para dedicar-me à tarefa de entender o problema da mineração de ouro em Paracatu através de estudos científicos.

Fico surpreso a cada dia com a situação absurda e grave que estes estudos estão revelando, e compartilho esse conhecimento com todo o mundo, de forma transparente e desprendida, em jornais, vídeos e nos blogs alertaparacatu e sosarsenic, que são de acesso livre e gratuito. Estou inclusive coordenando uma campanha internacional pelo banimento da mineração em rocha arsenopirita, não apenas em Paracatu, mas no mundo.

Os órgãos ambientais do governo existem para garantir que estudos científicos sejam feitos em profundidade e com independência, e que seus resultados divulgados com transparência para a população. Assim é feito na Europa, que pretende banir a mineração que usa cianeto de sódio a partir do ano que vem. Em Minas Gerais e no Brasil, ocultam que a expansão da mineração de ouro em Paracatu liberará das rochas do Morro do Ouro para o ar, os solos e a água um milhão de toneladas de arsênio, um dos venenos mais potentes e persistentes conhecidos.

Eu não sou governo, eu sou o povo. E no nosso regime de governo democrático, o povo é o legitimador do governo. Eu cumpro com legitimidade esse papel que o governo se nega a cumprir, e sou chamado de “terrorista” e “perturbador da ordem”. Eu não sou terrorista. Terrorista é quem governa sem respeito aos direitos e regalias do povo. Se estou perturbando uma ordem, certamente é a ordem injusta e imoral do acúmulo e concentração de renda nas mãos de poucos à custa da saúde e da vida de milhares.

Eu publico meus estudos em revistas sérias e com corpo editorial internacionalmente reconhecido e sou chamado de “cientista louco”. Eu demonstro com clareza um genocídio em curso em Paracatu e querem “prender-me e confinar-me”.

Então eu me pergunto: por que? Por que caluniam, difamam e ainda querem prender e confinar quem revela a verdade e defende a vida? Que interesses financeiros genocidas estão por trás desses insultos, ameaças, calúnias e difamações?