quarta-feira, 14 de maio de 2008

O enterro do Córrego Rico

O enterro do Córrego Rico (*)

Ouço o rádio anunciar uma revitalização. Ouço sinos que anunciam um enterro. Não perguntem de quem. É o enterro do Córrego Rico, da nossa vida, da nossa dignidade.
O enterro da verdade, a ocultação dos males. E lá, onde plantaram a morte, esperam colher a vida. Onde construíram a mentira, fingem dizer a verdade.

E qual é a verdade? Antes da chegada da RPM em Paracatu, tínhamos mais água no Córrego Rico; nosso córrego tinha mais vida, porque suas nascentes principais estavam intactas no Morro do Ouro, o Morro da Cruz das Almas. A RPM destruiu essas nascentes. Não foi o garimpo e os garimpeiros que diminuíram a água da praia, foi a RPM. A água que antes corria para o córrego agora fica presa nos tanques cavados pela mineradora na lavra do morro.

Furto de água é crime. A transnacional RPM-Kinross usa toda a água furtada do córrego na sua usina. Sem dúvida alguma, a RPM é a principal malfeitora do Córrego Rico. Exatamente por isso, foi obrigada, pelos promotores de justiça de Paracatu, a recuperar o córrego. Isso é bom e justo e também é o que a sociedade de Paracatu almeja. Isso faz sentido.

O que não faz sentido é toda a política e propaganda enganosa da empresa sobre um projeto polêmico de recuperação, que ainda poderá criar problemas para a comunidade. O que é mais importante: o Córrego Rico para Paracatu, ou o Córrego Rico para a propaganda e a política da RPM?

Assim como um paciente que teve hemorragia só pode sobreviver com uma transfusão de sangue, um córrego doente e assoreado, que perdeu suas nascentes e boa parte da sua água, só pode ser revitalizado com mais água. Para recuperar seus poços, onde antes rebojava a água, nadavam peixes e brincavam crianças, o córrego precisa de mais água e também que se retire o cascalho do seu leito assoreado.

É assim que defendemos a limpeza e o desassoreamento da calha do Córrego Rico, a verdadeira recuperação e proteção de sua mata ciliar e a recuperação do Córrego do Espalha e dos outros córregos do assentamento urbano de Paracatu que ainda contribuem água para o Córrego Rico. Consideramos que a construção de parques lineares nas margens dos córregos fere a legislação ambiental, cria estruturas de difícil manutenção para a administração pública e prejudica a restauração dos processos naturais. Construção em margem de córrego é negação da natureza. Melhor é mata, que cuida de si mesma; basta que seja protegida por cercas, portarias de controle de acesso, guardas-mirins e monitores.

Então o de que o Córrego Rico realmente precisa e a coletividade merece é mata nativa em margens largas, com aves, frutas, água limpa e peixes, tanto no Córrego Rico como nos seus tributários urbanos. Um verdadeiro projeto de frutificação urbana. As únicas edificações que poderiam ser admitidas seriam trilhas para pedestres e ciclovias, fora das áreas de preservação permanente.

O Córrego Rico foi o início de tudo, em Paracatu. O Córrego Rico não precisa de maquiagem verde e o povo não merece o desrespeito e as soluções indecentes de uma empresa transnacional. Paracatu tem história! O de que o Córrego Rico precisa é de mais água e de mais proteção.

Não se admite que os destinos do Córrego Rico sejam traçados “na calada”. Não se faz política pública “na calada”. Isso é estelionato político! Uma cidade e um país precisam da liderança servidora de pessoas honestas e preparadas. O povo merece ações decentes, o povo exige respeito!

A RPM-Kinross é obrigada a recuperar o meio-ambiente degradado, não da forma que ela acha que deve, mas de acordo com as soluções técnicas aprovadas pelo órgão público competente. O Ministério Público, que é o órgão competente pelo cumprimento desta obrigação, após ouvir a população, deverá cobrar da empresa uma correta execução desta obrigação.

E a população precisa cerrar fileiras para cuidar do seu patrimônio, como se estivesse cuidando de si mesmo. Amai ao próximo como a si mesmo – não é isso o que nos ensina um conhecimento milenar de sobrevivência? O Córrego Rico e os córregos urbanos de Paracatu são os nossos próximos. Podemos até pensar no São Francisco, que está lá mais longe, mas devemos agir é sobre o Córrego Rico e suas nascentes, que são o problema mais próximo, o que nos compete resolver. Vamos zelar pela execução de medidas reparatórias realmente eficientes, mais abrangentes, conforme já indicamos e cobramos dos órgãos ambientais.

Do seu leito de morte, o Córrego Rico quer ressuscitar. Vamos ajudá-lo. Estamos juntos, vamos juntos. Vamos salvá-lo das imposturas dos predadores que aqui se infiltraram e feriram, “na calada”, o direito à escolha, à decência, à verdade e à vida.

(*) Crônica de Sergio U. Dani, presidente da Fundação Acangaú, maio de 2008