sábado, 19 de abril de 2014

O tesouro venenoso de Paracatu – Parte III

Ninguém sabe qual é a incidência de câncer no lugar.


A exposição crônica ao arsênio causa um catálogo de doenças. Esta foto mostra manchas de pele hipopigmentadas múltiplas de até 2 mm de diâmetro na perna de uma paciente vítima de intoxicação crônica pelo arsênio. Também visíveis nesta foto são as áreas eritematosas com leve hiperqueratose escamosa. Essa paciente desenvolveu um quadro sistêmico de arsenicose crônica a partir dos 47 anos de idade, com anemia poiquilocítica, hipertensão, infarto do miocárdio, câncer de mama, hipotireoidismo e osteoporose. Divisão menor da régua de medida: 1 mm. | Fonte: Dani S.U. Osteoresorptive arsenic intoxication. Bone 53 (2013) 541–545.

Os protestos contra a extração de minérios agora estão por toda a parte, no Brasil e em vários países vizinhos. Em lugares no fim do mundo, como Conceição do Mato Dentro, Alto Rio das Velhas ou Montes Claros, grupos de ativistas fazem demonstrações contra os impactos sociais e ambientais das novas minas. Por causa dos protestos, os planos para a abertura de uma gigantesca mina de ouro no rio Xingu na região amazônica tiveram que ser interrompidos há alguns meses. Ao que parece, o novo ceticismo sobre o boom das commodities tomou conta de todo o país.

Entretanto, a resistência é organizada principalmente pela classe média alta, instruída e abastada do país. Ela vive agora no campo; mantém relações com a política, a ciência e a imprensa e pode pagar advogados e publicitários. Materialmente, falta pouco a esta camada social. Ela também goza da riqueza da natureza e, por vezes, possui grandes propriedades rurais.

Contrastando com essa classe, colocam-se outros com uma visão radicalmente diferente. Em Paracatu, por exemplo, é o chefe de uma empresa de confecções de pequeno porte que recebeu o maior contrato de produção de sua história: uniformes para os funcionários da mina. Ou a líder de um projeto social para crianças que agora pode trabalhar muito melhor, porque ela recebeu uma generosa doação da Kinross. Ou o pequeno funcionário que investiu todas as suas economias em um lote de terra na borda da mina, na esperança de que um dia a empresa irá comprar o lote dele por uma soma enorme.

Acima de tudo, existem centenas de trabalhadores que ganham dinheiro com a mina – homens e mulheres que em Paracatu são representados pelo líder sindical José Osvaldo Rosa de Souza. ‘Já está claro para nós que a empresa trabalha com as táticas de apaziguamento’, diz ele . ‘Todos nós pagamos um preço por essa mina, mas não temos a menor idéia do quão alto esse preço realmente é.’

Souza acha que as coisas devem ser vistas pelo lado econômico. Aos custos indetermináveis opõe-se um benefício precisamente determinável. Segundo seus levantamentos, há 1.300 empregados diretos na mina, dos quais 60 por cento são de Paracatu. Mesmo simples operários ou seguranças ganham o equivalente a 660 euros por mês, portanto mais do que recebem os diaristas com seus dez euros por dia de trabalho, ou a renda ainda mais baixa na agricultura. ‘É por isso que todo mundo quer trabalhar na empresa’, diz o sindicalista. E alguns deles criticam que logo os mais bem situados instiguem os protestos contra a mina.

Mas, e as conseqüências para a saúde? O que adianta o dinheiro, se você pode morrer cedo? Rosa de Souza disse que o sindicato tentou obter estudos sobre as consequências para a saúde.

No entanto, quando se trata de estudos e fatos e provas, tudo é muito estranho nesta cidade. Mesmo pesquisas tão simples como a carga de poeira no ar ou certos exames de sangue freqüentemente se arrastam por anos; alguns resultados são publicados e outros não. E se há um resultado desfavorável para a mina – por exemplo, quando o sindicato identificou quatro funcionários da empresa com níveis extremamente elevados de arsênio no sangue –, logo em seguida aparecem novos relatórios que afirmam o contrário.

Sobre a incidência de câncer no local ninguém tem uma visão geral. Em Paracatu mesmo, o câncer não é diagnosticado, os pacientes são distribuídos para os especialistas em várias cidades vizinhas, e assim eles não aparecem nas estatísticas de saúde como ‘casos de Paracatu’. Em um estudo recente, 19 por cento das mortes em Paracatu foram catalogadas como ‘não esclarecidas‘.

Em todas as questões de saúde, contaminação, ruído e outras questões ambientais os oponentes e os gestores da mina travam uma guerra de papéis em ritmo de lesma. Estudos contra estudos, ‘é venenoso’ contra ‘não é venenoso’. Os oponentes dizem que a mineradora usa essa tática para esconder os perigos da mina. A Kinross assinala que obviamente respeita a lei. Que nas medições que ela própria executa na poeira e na água, nenhuma concentração problemática de venenos foi detectada. Que até mesmo as estradas e os caminhões são aspergidos com água, de acordo com os padrões internacionais, para que menos poeira se espalhe em redor. Que ela emprega técnica moderna para manter os impactos da mineração nos níveis baixos.

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sábado, 5 de abril de 2014

O tesouro venenoso de Paracatu - Parte II

"A mina é a pior coisa que já aconteceu em Paracatu" (Ranulfo Neiva)


A mina logo atingirá a borda da fazenda de Ranulfo Neiva. | © Photo Agency Giorgio Palmera / Eco

É uma tarde de domingo na fazenda de Ranulfo Neiva. Cerca de 30 membros de sua família pululam ao redor do fogão de lenha, o forno alongado das cozinhas de fazenda, como é típico nesta região do Brasil. Nas panelas ferve a carne de porco com feijão, há arroz, mandioca e folhas da couve amarga que cresce no planalto. Ranulfo é um agricultor e há 44 anos o apresentador de um programa de rádio popular na região. Se você perguntar por um especialista sobre Paracatu, seu povo e sua história, você será enviado para este homem.

Ranulfo Neiva diz: "A mina é a pior coisa que já aconteceu em Paracatu."

Entre os motivos para enxergar assim, ele tem também um pessoal: em poucos meses sua fazenda ficará tão colada à mina quanto a pequena casa do garimpeiro Teixeira. Porque a mina cresce, expande-se, e quase todos os vizinhos de Neiva já venderam suas terras para a empresa. Recentemente, veio gente da Kinross para perfurar o chão da terra de Neiva e fincar uma sonda ali; ele os mandou ir embora, e eles saíram furiosos.

Neiva é um opositor da mina – mas mesmo ele, a eminência parda no local, procura desesperadamente provas claras da sua nocividade. "Há tanto murmúrio, tantos rumores", diz ele. Médicos da cidade teriam dito a ele que uma criança que nasce hoje em Paracatu poderá estar doente aos 20 anos de idade. "Eu posso verificar isso?", pergunta ele, e responde a si mesmo: "Claro que não!" (1)

Na cidade dizem que a Kinross faz exames de sangue dos trabalhadores da mina, logo eles teriam muito arsênio nas veias. Outro rumor diz que sob a cidade há tanto ouro para pegar, que um dia ela iria desaparecer completamente do mapa. Que nada restaria exceto um buracão. Acredita Neiva nesses rumores? Em alguns deles. Por que ele ainda está aqui, por que ele permanece em uma fazenda que logo estará ao lado de um poço empoeirado e tóxico? Tais perguntas deixam Neiva com raiva, e ele se levanta. "Eu tenho aqui uma fazenda, uma família enorme. Eu não posso simplesmente levar tudo isso para algum lugar!"

Rumores, medos, exemplos de outros lugares: de tudo isto resultou a primeira reação há alguns anos. Quando a mina começou a expandir-se rapidamente, uma representante dos pequenos grupamentos dos povos tradicionais da região ao redor Paracatu, os chamados Quilombos, organizou manifestações e protestos ferozes. Sergio Dani, médico, cientista e herdeiro de uma enorme fazenda perto da mina iniciou uma campanha pessoal contra a Kinross; ele protestou contra um "genocídio" e cobriu a mineradora de ações judiciais, denúncias e queixas.

Desde então, a monotonia tornou-se coisa rara em Paracatu. Certa ocasião, os adversários da mina exigiram dos órgãos da administração pública que os caminhões empoeirados da mineração fossem proibidos de circular no meio da cidade; em seguida os caminhões das empreiteiras da Kinross foram reunidos em um comboio para uma contra-manifestação em frente à Câmara Municipal. Um jornalista e um cinegrafista local filmaram o documentário intitulado "Ouro de Sangue"(2); a transmissão do documentário pela televisão local foi iniciada, mas logo interrompida por razões inexplicáveis.

O geólogo Márcio José dos Santos escreveu um livro grosso em que todos os problemas causados ​​pela mina foram registrados, desde a engravidação de menores de idade pelos trabalhadores da mina vindos de outras regiões, até a poeira tóxica nos pulmões dos motoristas de caminhão.(3) Rafaela Xavier Luiz, uma jovem advogada, começou a estudar e catalogar casos de doenças inexplicáveis em sua cidade natal – do câncer de garganta até as lesões de pele. De vez em quando ela é entrevistada no programa de rádio local e, em seguida, diz coisas como: "Devemos continuar a nossa resistência".

O vereador Glewton de Sá chefia a Câmara Municipal de Paracatu. "Sim, há claramente mais e mais adversários da indústria da mineração", diz ele. "Mas há também o outro lado. Quando nós quisemos regular as explosões na mina -  nós não queríamos abolir as explosões, mas distribuí-las de certo modo durante o dia – teve gente aqui que queria nos linchar. Chegaram a dizer que nós iríamos destruir postos de trabalho."

Notas do Tradutor:

1. Certamente Ranulfo Neiva refere-se à necessidade de estudos e monitoramentos epidemiológicos e clínico-laboratoriais, conduzidos por médicos e cientistas independentes e com competência comprovada através de currículo. Esse é exatamente o objeto da Ação Civil Pública movida, desde 2009, pela Fundação Acangau contra a Kinross e a Prefeitura Municipal de Paracatu. Até o momento, o pedido desta ACP não foi satisfeito. 

2. Ouro de Sangue. Documentário de 2008, pelo jornalista e cineasta Sandro Neiva e o cinegrafista Alessandro Carvalho Silveira.  Acessível gratuitamente em: www.bloodstainedgold.blogspot.com. Leia também o artigo em: 

3. Santos, MJ.  2012. O ouro e a dialética territorial em Paracatu-MG: opulência e resistência. Tese de Mestrado, Universidade Católica de Brasília. Acessível em http://paracatumemoria.files.wordpress.com/2012/08/o-ouro-e-a-dialc3a9tica-territorial-em-paracatu.pdf


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http://www.alertaparacatu.blogspot.com/2014/04/o-tesouro-venenoso-de-paracatu-parte-iii.html
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sábado, 29 de março de 2014

O tesouro venenoso de Paracatu - Parte I

No Brasil cresce a resistência contra a exploração mineral nociva ao ambiente e às pessoas. Uma visita a uma das maiores minas de ouro da América Latina. POR THOMAS FISCHERMANN



O garimpeiro José Joaquim Teixeira sabe: O ouro de Paracatu vem misturado com muito arsênio. | © Photo Agency Giorgio Palmera / Eco


A mina de ouro está localizada junto à pequena cidade de Paracatu, e se expande. A operadora da mina, Kinross Gold Korporation libera o ouro da rocha com explosões, um moinho de minério e processos químicos. | © Photo Agency Giorgio Palmera / Eco

A partir do telhado de zinco da casa simples que pertence ao José Joaquim Teixeira tem-se uma excelente vista da explosão. Em cada dia de trabalho na gigantesca cava da mina, por volta das 16 horas um tesouro é arrancado da terra. A dinamite explode toneladas de rocha e faz tilintar taças de vidro a quilômetros de distância, e logo depois uma nuvem cinzenta paira sobre o vale. O sol atinge as partículas de poeira e as tinge de um amarelo sujo, até que o vento as apanha e as sopra sobre as colinas, sobre a casa do José Teixeira e sua cidade natal de Paracatu.

Paracatu, 80.000 habitantes, localizada a três horas de viagem de carro à sudeste da capital do Brasil, Brasília, foi construída sobre uma pepita de ouro. Em 1722, o povoado viveu sua primeira corrida do ouro, e até há poucas décadas seus moradores, após as chuvas fortes, ainda punham-se a procurar, na lama e no cascalho deixado pelas enxurradas, pelos caminhos, pedrinhas e pozinhos brilhantes que prometiam um pouco de prosperidade.

Entrementes, o asfalto cobriu as vias e os caminhos de Paracatu, uma empresa de mineração comprou a terra da região, e há dez anos José Texeira não é mais o que costumava ser: um garimpeiro profissional. Por décadas, esse homem negro parrudo enfurnava-se com sua bateia pelos córregos e riachos, e mesmo quando a operadora da mina veio com escavadeiras e explosivos, ele ainda se punha a trabalhar nos efluentes e rejeitos da mineração mecanizada. Até que, em 2004, um novo e mais agressivo proprietário da mina, a empresa mineradora canadense Kinross expulsou os últimos garimpeiros com cães e armas. O ouro, como consta do seu contrato com o governo, pertence somente à Kinross.

José Teixeira sabe até hoje tudo sobre o ouro desta área - e ele também conhece o seu lado sombrio. "Onde está o ouro? Aqui por toda a parte!", diz ele , apontando para o chão, e apanha um pedaço de rocha. É um pedaço de rocha cinza com veios finos, eles são amarelos, marrons e esverdeados, uma mistura perigosa. O ouro de Paracatu vem colado ao arsênio, um veneno inodoro, do qual pequenas quantidades bastam para matar um ser humano, e que lentamente se acumula nas vias aéreas e nos ossos, e faz crescer tumores cancerígenos, danifica os nascituros e desencadeia todo um catálogo de queixas crônicas.

O arsênio acompanha o ouro em quase todos os lugares, mas na área de Paracatu a proporção é particularmente desfavorável. Em quatro quilos de rocha encontra-se aqui apenas 0,4 grama de ouro, mas 300 gramas de arsênio (1). Sob Paracatu jaz um tesouro – mas também veneno suficiente para erradicar teoricamente mil vezes toda a humanidade.

Então o que acontece se a cada dia explode arsênio em uma mina a céu aberto que está localizada no meio de uma pequena cidade? Se a poeira é lançada ao ar ? Se o ouro é extraído através de moagem – aliás num moinho fornecido pela Siemens – e processos químicos que dissolvem o ouro, e os efluentes tóxicos são bombeados para lagoas de infiltração ?

Durante as últimas décadas, essas questões eram secundárias no Brasil. O boom das commodities tinha prioridade. O Brasil queria sair da condição de país emergente para tornar-se um poderio industrial e mundial, e para isso a riqueza tinha que sair do chão. As matérias-primas que respondem por quase um quarto de todas as exportações brasileiras precisavam ser enviadas para a China, os EUA e a Europa, e elas também tinham que alimentar o rápido crescimento da indústria doméstica. Questões de saúde pública ou de proteção ambiental eram algo para belos discursos dominicais e para leis que ninguém levava a sério.

Mas quando o grupo canadense Kinross assumiu a mina de Paracatu em 2003, e em poucos anos triplicou a exploração de ouro usando novas técnicas de “supermineração”, ele trombou suas escavações e explosões contra algo totalmente novo: uma resistência feroz.

Notas do tradutor:

(1) O ouro na mina a céu aberto de Paracatu ocorre juntamente com a arsenopirita, um mineral sulfetado de arsênio de fórmula química FeAsS. Segundo relatórios oficiais da própria mineradora Kinross Gold Corporation, a quantidade de arsênio presente no minério de ouro de Paracatu é muito alta.  Na folha 317 da Ação Civil Pública (ACP) movida a partir de 2009 pela Fundação Acangau contra a Kinross, a mineradora informa que o arsênio “está presente em 1,5% do minério de ouro, em média”. Um e meio por cento significa 1,5 kg de arsênio para cada 100 kg de minério, equivalente a 15 partes de arsênio por mil partes de minério, ou 15 kg de arsênio por tonelada de minério. Essa concentração é quinze vezes maior que a anunciada pela própria ré em outros relatórios técnicos (Henderson RD. 2006. Paracatu Mine Technical Report. Kinross Gold Corporation, July 31, 2006. Disponível na internet em: http://www.kinross.com/operations/pdf/Technical-Report-Paracatu.pdf;  relatório da ré reproduzido na folha 1344 da citada ACP indica concentração de arsênio de 1000-1500 ppm). Considerando a quantidade total de minério de ouro com arsênio a ser processado pela ré a partir do chamado “projeto de expansão III” iniciado em 2007, cerca de um bilhão de toneladas, chega-se à quantidade total de arsênio, multiplicando-se 1,5% por um bilhão: 15 milhões de toneladas (em vez de 1 milhão de toneladas, conforme depreendido do relatório de Henderson, 2006, citado acima). A Kinross informa que “apenas uma ínfima quantidade residual de cerca de 1%” do arsênio liberado da rocha é lançado na lagoa de rejeitos, sendo o restante depositado em tanques específicos (fl. 318 da ACP). Essa quantidade “ínfima” seria então equivalente a 150 mil toneladas (1% x 15 milhões de toneladas = 150 mil toneladas), embora a Kinross informe, na folha 318 da ACP, que trata-se, na verdade, de 463.640 toneladas de arsênio, portanto uma quantidade 3x maior.  A Kinross informa, na nota de rodapé da folha 318 da ACP, que desse valor total, “apenas 1,8 toneladas estão diluídas na água; o restante permanece estável nos rejeitos, da mesma forma como estavam na mina”. Essa quantidade “ínfima” de arsênio dissolvido na água já seria suficiente para matar, em questão de horas ou dias, 10 milhões de pessoas, e para intoxicar, cronicamente, um número muito maior de pessoas em questão de anos ou décadas de exposição (para matar um ser humano adulto em questão de horas ou dias, bastam cerca de 140 a 180 miligramas de arsênio inorgânico. Quantidades muito menores – da ordem de milionésimos do grama – se ingeridas ou aspiradas ao longo de meses ou anos, podem causar uma série de doenças incluindo câncer, doenças vasculares, diabetes, doenças neurológicas, imunodeficiência, etc.). Esses números já são assustadores, mas representam um valor subestimado. Um estudo publicado pela Kinross, em colaboração com o CETEM-Centro de Tecnologia Mineral informa que apenas 30% do arsênio é recuperado pelo processo de hidrometalurgia utilizado pela Kinross (Monte MBM, Lins FF, Dutra AJB, Albuquerque CRF, Tondo LA. The influence of the oxidation state of pyrite and arsenopyrite on the flotation of an auriferous sulphide ore. CT2002-195-00 Comunicação técnica elaborada para o periódico Minerals Engineering. CETEM-Centro de Tecnologia Mineral, MCT-Ministério da Ciência e Tecnologia, Coordenação de Inovação Técnológica - CTEC, Rio de Janeiro, Dezembro/2002. O Sr. Luis Albano Tondo, funcionário da RPM-Kinross há muitos anos, é co-autor desse artigo). Esse estudo indica que o processo de hidrometalurgia utilizado pela mineradora em Paracatu não é capaz de recuperar todo o arsênio tóxico que ela libera do minério arsenopirita. O concentrado gravitado de ouro possui uma composição média de 58,3 gramas de ouro por tonelada, 15,2% de ferro (Fe), 21,9% de enxofre (S) e 11% de arsênio (As), sempre conforme o estudo publicado pela Kinross em conjunto com o CETEM. Enquanto a recuperação média de ouro no circuito da hidrometalurgia varia de 40% a 80%, a recuperação máxima do arsênio é de apenas 30%, informa o estudo já citado. Isso quer dizer que 70% ou mais do arsênio – equivalente a 105 milhões de toneladas – não são recuperados, segundo o estudo. A baixa taxa de flotabilidade da arsenopirita pode ser atribuída à formação de espécies de óxidos de ferro sobre a superfície do sulfeto ou arsenopirita. A reação do oxigênio com a superfície da arsenopirita é rápida e muito facilitada, e produz espécies altamente tóxicas de óxidos de arsênio, certamente as espécies que a Kinross chama de “arsênio perigoso” (fl. 318 da ACP). O uso de nitrogênio no lugar do oxigênio na função de gás para flotação pode aumentar a recuperação do arsênio, porém a própria Kinross reconhece e afirma e sabe que a recuperação do arsênio não é completa. Isso significa que o arsênio originalmente presente na arsenopirita, incluindo compostos mais tóxicos que a própria arsenopirita, é deliberadamente descartado junto com os rejeitos, tanto nos tanques específicos quanto na lagoa de rejeitos. Prova disso é que a Kinross afirma que parte do arsênio descartado fica dissolvido na água – cerca de 1,8 toneladas (nota de rodapé da folha 318 da ACP). As quantidades de arsênio liberado admitidas pela Kinross e estimadas a partir dos dados e estudos fornecidos pela própria Kinross é assustadora e constituem evidência de poluição grave e persistente. A afirmação da Kinross de que parte do arsênio liberado da rocha e descartado na lagoa de rejeitos “permanece estável nos rejeitos, da mesma forma como estavam na mina” (nota de rodapé da folha 318 da ACP) é falaciosa. Na mina, o arsênio encontrava-se solidamente cimentado em rochas duras que datam do período proterozóico, enquanto que nos rejeitos o arsênio encontra-se finamente moído e disperso em uma bacia sedimentar terciária artificial aplainada, sob efeito da drenagem ácida. Em outras palavras, a Kinross está liberando da rocha um veneno que levou bilhões de anos para ser cimentado pela natureza numa época da história natural da Terra em que só existiam formas primitivas de organismos, como proto-bactérias que conseguiam sobreviver em meio ao arsênio. A Kinross quer que os “rejeitos permaneçam estáveis, da mesma forma como estavam na mina”. Quanta pretensão, igualar um processo que durou entre centenas de milhões de anos a bilhões de anos, e um processo que dura poucos dias, meses, décadas ou anos! Na ACP, a Kinross evita discorrer sobre a liberação de arsênio na poeira fugitiva da mina. Em seu “Relatório de Desenvolvimento Sustentável” de 2003, a ré mostrava que a quantidade de arsênio na "poeira fugitiva" da sua mina de ouro a céu aberto em Paracatu aumentou de 3,42 kg em 2001, para 5,79 kg em 2002, e para 6,10 kg em 2003 (Rio Paracatu Mineração SA. Relatório de Desenvolvimento Sustentável de 2003, página 14). Esse relatório não deixa dúvida nem sobre a fonte nem sobre a autoria desta poluição. Inexplicavelmente, a Kinross evita informar a quantidade de arsênio que ela está liberando anualmente na forma de poeira. Na fase atual do empreendimento chamada “projeto de expansão III”, iniciado em 2007, a Kinross processará cerca de 1 bilhão de toneladas de minério, volume que é cerca de três vezes maior que o volume de minério processado antes da expansão. Fazendo-se uma regra de três simples a partir do último dado disponível de 2003, pode-se estimar uma liberação anual de cerca de 18 kg de arsênio para a atmosfera, na forma de material particulado (poeira). Como não existe diferença entre as vias de absorção no que diz respeito à toxicidade do arsênio (Smith AH, Ercumen A, Yuan Y, Steinmaus CM. 2009. Increased lung cancer risks are similar whether arsenic is ingested or inhaled. Journal of Exposure Science and Environmental Epidemiology 19, 343–348), pode-se afirmar que apenas essa quantidade de arsênio que é liberada na forma de poeira é suficiente para intoxicar 100 mil pessoas, equivalente a toda a população de Paracatu.

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http://www.alertaparacatu.blogspot.com/2014/04/o-tesouro-venenoso-de-paracatu-parte-ii.html

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O tesouro venenoso de Paracatu: Prefácio à tradução

Prefácio à tradução (1), por Sergio Ulhoa Dani


Quando Thomas Fischermann contou-me que gostaria de fazer uma reportagem sobre a corrupção no Brasil, eu sugeri que visitasse Paracatu. A corrupção parece explicar como e porque, em pleno século 21, ainda se permite a operação de uma mina de ouro e arsênio em um território urbano habitado por 80 mil pessoas, nas cabeceiras de uma das mais importantes bacias hidrográficas de um país de dimensões continentais como o Brasil.

Pagamentos facilitadores, ganância fútil, ignorância útil e violência de toda sorte são os elementos corrompedores de que a mineradora canadense Kinross Gold Corporation tem se valido para perpretar um verdadeiro e persistente genocídio em Paracatu e região. A Kinross montou uma rede de apoio constituída de empresários, políticos, órgãos e agências governamentais canadenses e brasileiras, mídia, juízes, polícia, ministério público, até certas ONGs ambientalistas.

O empreendimento mortífero da Kinross em Paracatu tem alcance internacional, seja porque financiado e apoiado pelo governo canadense, seja porque instrumentalizado por empresas transnacionais como Caterpillar/Bucyrus, Siemens, DuPont, seja porque uma fração das centenas de milhares de toneladas de arsênio liberadas da rocha dura pela mineração da Kinross em Paracatu espalha-se pelo mundo através do ar, da água e da cadeia alimentar, atualmente e durante os próximos séculos, causando desequilíbrios ambientais, pobreza, doenças e sofrimento humano.  

A publicação dessa reportagem altamente interessante no jornal alemão Die Zeit, assinada por esse jornalista premiado, Thomas Fischermann, ilustrada com fotos de tirar o fôlego do também premiado fotógrafo Giorgio Palmera contribui para o esclarecimento da opinião pública internacional sobre a corrupção envolvida na mineração de ouro e o drama de vida e morte das pessoas afetadas pela destruição do ambiente e a intoxicação crônica pelo arsênio.

Antes e durante sua visita a Paracatu, Fischermann e Palmera contaram com a colaboração de inúmeras pessoas, muitas das quais são citadas nominalmente na reportagem. Essas pessoas nunca foram ouvidas nos processos de tomada de decisão que afetam diretamente sua própria vida.  A reportagem de Fischerman contribui para corrigir essa injustiça. Infelizmente, uma dessas pessoas faleceu antes de ver a reportagem publicada, e lamentamos profundamente a morte desse amigo e colaborador, e a falta que ele fará: Martin Wilhelm Kühne.

Na tradução da reportagem que preparei a seguir, incluí algumas notas de tradutor a título de esclarecimento sobre aspectos idiomáticos, sócio-ambientais e científicos.

Bremen, primavera de 2014
LD Dr.med. DSc. Sergio Ulhoa Dani


Notas do tradutor:


(1) Der giftige Schatz von Paracatu. Von Thomas Fischermann, mit Bilder von Giorgio Palmera. Die Zeit Nr. 13, 20. März 2014, Wirtschaft/Seiten 30-31. Hamburg, Deutschland. Versão online publicada 28.03.2014: http://www.zeit.de/2014/13/goldmine-paracatu-brasilien-rohstoff  . Die Zeit (pronúnica alemã: [diː ˈtsaɪt], literalmente “O Tempo”) é um jornal alemão semanal respeitado por sua qualidade jornalística. Com uma tiragem de 504.072 no segundo semestre de 2012 e mais de 2 milhões de leitores, Die Zeit é o jornal semanal mais amplamente lido na Alemanha.

Leia a reportagem, por partes:

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