quinta-feira, 3 de junho de 2010

O avesso do progresso

O avesso do progresso

Por Sergio U. Dani, de Göttingen, Alemanha, em 3 de junho de 2010

Jornalismo, conforme afirmou George Orwell, é "publicar o que alguém não quer ver publicado, todo o resto é relações públicas".

Ofereço aqui uma matéria jornalística como contraponto a uma recente reportagem publicada por um certo jornal de Brasília. Presto aqui as minhas homenagens ao repórter do jornal, porém ao avesso, seguindo o espírito Orwelliano de publicar o que alguém não gostaria de ver publicado.

Lá vai:




Minas de pobreza

Em torno das minas de ouro, a destruição é crescente, a renda está em
processo de concentração e o poder público se empanturra com problemas que
não consegue resolver com as migalhas que sobram da mineração.

Interior empobrece

Lugarejos outrora tranquilos e saudáveis começam a ganhar características de
regiões doentes. Sujas, poluídas, mal-organizadas e violentas, as cidades
estão substituindo as comunidades justas, solidárias e livres, antes comuns
no interior do país, por edifícios altos, alguns funcionando como clubes
exclusivos.

Desenvolvimento errado deixa mazelas

Com a mineração, a pequena cidade mineira de Paracatu entrou no corredor da
morte da corporação transnacional canadense Kinross Gold Corporation. A
economia diversificada e sustentável da cidade, baseada no agronegócio, está
ameaçada pela contaminação ambiental causada pela mineração de ouro a céu
aberto na cidade.

Ouro vai, veneno fica

Nem 100% de todo o ouro que a Kinross arranca de Paracatu para exportar será
suficiente para recuperar o estrago causado. Para cada kilo de ouro extraído
das rochas de Paracatu, a mineradora libera 3 toneladas de arsênio que ficam
no ar, nos solos e nas águas do município. Arsênio é um dos venenos mais
poderosos conhecidos, e está grudado na mesma rocha onde está o ouro. Quando
a mineradora quebra e tritura a rocha para liberar o ouro, libera também o
arsênio.

Todas as dez doenças que mais matam no mundo, conforme relatórios da
Organização Mundial da Saúde, podem ser causadas por arsênio: câncer,
doenças cardiovasculares, diabetes, doenças mentais, entre outras.

O arsênio é o veneno que destrói, aos poucos, a saúde das pessoas e o futuro
das empresas instaladas na cidade, que empregam dez vezes mais gente que a
mineradora transnacional. Somente a COOPERVAP-Cooperativa dos Produtores do
Vale do Paracatu emprega mais de 2 mil pessoas, contra apenas 700
funcionários da mineradora canadense.

A condutora turística Christiane Pereira dos Santos, tem apenas 27 anos, mas
já reconhece os impactos da mineração sobre o município: “A mina de ouro
realmente provocou impactos fortes em Paracatu. Mas precisamos de mais
coisas. Será necessário um desenvolvimento mais sustentável, de preservação
ambiental, de melhoria social — quase 40% da população estão na pobreza”,
diz.

Paracatu está se tornando um local perigoso para se viver. Crateras e lagoas
de rejeitos foram abertas em torno da cidade e a oferta de veneno é cada vez
maior. Esse movimento é impulsionado pela própria Kinross, preparando o
terreno para um verdadeiro genocídio qualificado.

Brasil infestado de mineradoras transnacionais canadenses

Os mais pessimistas acreditam que a grande tragédia da contaminação
ambiental está apenas começando, com dezenas de mineradoras transnacionais
canadenses espalhadas pelo território brasileiro, contando com o apoio de
autoridades governamentais brasileiras e canadenses, e distribuindo
"pagamentos facilitadores" para simplificar os negócios.

Os canadenses estão muito satisfeitos, rindo à toa com a facilidade de
ganhar dinheiro com a mina de ouro em que se transformou o Brasil. Para Greg
McKnight, vice-presidente da mineradora canadense Yamana Gold, "o Brasil tem
uma excelente infraestrutura, os custos da mineração são baixos e o processo
de licenciamento é simples." (1).

(1) em um artigo de Peter Blackburn, publicado em 6 de outubro de 2004,
disponivel em http://www.minesandcommunities.org/article.php?a=1098(acessado
em maio, 2010).